Professor e especialista em educação comenta sobre os programas de concessão de bolsas em universidades privadas e fala sobre o desenvolvimento de alunos bolsistas nestas instituições
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"As políticas compensatórias estão colocando em discussão todo esse preconceito existente na sociedade..." | Marcos Vinícius Araújo
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Em janeiro de 2015 completou-se 10 anos da institucionalização do Prouni, programa do Governo Federal que possibilita a entrada de estudantes de baixa renda – advindos prioritariamente de escolas públicas – em universidades privadas. Tema de grandes controvérsias (assim como o sistema de cotas em universidades públicas), o programa foi alvo de críticas, tanto de alunos pagantes quanto de alguns acadêmicos que atribuíram ao programa e ao ingresso destes alunos uma queda na qualidade da educação nestas universidades.
A discussão, porém, vai muito além da questão da qualidade. Quais os parâmetros utilizados para definir quem “merece” ou não ingressar em uma universidade? Em entrevista para O Trem, o professor Marcos Vinícius de Araújo, Doutor em Distúrbios do Desenvolvimento e atuante na área da Psicologia Educacional, comenta sobre a importância de políticas compensatórias na área da educação e como se dá o desenvolvimento do aluno bolsista em um contexto educacional privado. Confira!
- Baseado em seu contato com alunos bolsistas, você diria que existe alguma diferença clara entre o desempenho acadêmico de alunos bolsistas e alunos pagantes?
Depende o momento do curso, mas em alguns momentos sim. Quando você pega no começo do curso, em alguns momentos, dependendo a forma de ingresso do aluno ele tem um pouco do desempenho abaixo da media. Eu dou aula no começo, no meio e no fim do curso, quando eu pego lá pelo meio de quinto e sexto semestre, em um curso de dez semestres, já não percebo diferença nenhuma. Por vários fatores, acho que envolvimento e tempo que a pessoa tem, e por ai vai. No final do curso, essas pessoas tendem a ter um desempenho, senão igual, até maior em relação aos demais alunos.
- E você atribui isso a quê?
Tem muito no correr atrás, de entender a oportunidade que o aluno está tendo, de tentar superar obstáculos. Por exemplo, eu tenho alunos que quando começam a sua graduação se aproximam do semi-analfabetismo, sem exageros, dependendo de quando o vestibular é menos procurado. Alguns terminam o curso em um nível de profissionalismo excelente, porque correm atrás, perguntam o que podem fazer para superar possíveis dificuldades. Eu vejo este processo como extremamente positivo e acho que não é função da universidade fazer essa parede no começo. Você tem que discutir o porquê ela chegou até ali naquelas condições e não ser excludente, como propõem algumas pessoas.
- E em relação ao comprometimento com o aprendizado, existe diferença?
Nitidamente. Um grande número de instituições particulares de ensino tem uma tradição de atender a um publico especifico, de classe média, média alta, e muitos alunos sequer sabem o porque que estão em uma universidade, mesmo com alto nível de formação, falando duas ou três línguas, mas as vezes de uma arrogância e prepotência muito grandes.
Os alunos bolsistas, muitas vezes, vêm de uma escola que não deu o devido suporte a sua formação, os alunos chegam muito deslocados. Inclusive o nosso papel no começo do curso é mostrar que eles conseguem se seguirem por determinados caminhos. Eles têm uma motivação muito maior, eu percebo muito isso, porque sabem o quanto custou estar ali naquele momento, e agarram com todas as forças possíveis. Eu diria que na grande maioria, chega-se a um nível de formação muito bom.
- Você acredita que na hora de ingresso no mercado de trabalho, esses alunos bolsistas podem ser prejudicados de alguma forma, talvez por não terem recursos para enriquecer o currículo?
Na verdade eu acho que não, acho que não porque se buscam outros caminhos, você tem prós e contras. Essas vontades que as pessoas têm, e muitas têm dificuldades de trabalho, tem outras atividades, tem família, tem um monte de coisas pra fazer, e mesmo assim são as que mais leem os textos sugeridos, as que mais participam dos debates.
E tem a aprendizagem tácita, a aprendizagem da vida. Essas pessoas trazem históricos de vida que são uma vantagem muito grande no seu exercício profissional. Vão ter dificuldades que vão ter que superar, é obvio que uma pessoa que chega sem domínio, hoje, do inglês apresenta um nível de dificuldade maior porque muitos textos são dados em inglês, muitas discussões a partir de conteúdos em outra língua. Essas pessoas vão apresentar dificuldades, agora são dificuldades superáveis. Ter uma dificuldade não significa fracassar, significa ter que supera-la.
- Você acredita que esses programas de concessão de bolsas - ou até de cotas - podem influenciar na qualidade do ensino nas universidades?
Pode influenciar positivamente, na minha concepção, por uma questão muito simples: a aprendizagem se dá pela diferença, e não pela igualdade. Se você é igual a mim, você tem muito pouco a me ensinar. Se somos diferentes, tanto quem ensina quanto quem aprende de forma dialética, ganham muito mais. Diria que, na contramão do que muitas escolas fazem hoje, nós deveríamos misturar mais pessoas que tem dificuldades com pessoas que tem mais facilidade, em relação a vários conteúdos, pra poder haver a troca, porque a melhor forma de eu aprender é ensinar.
Então, negativamente não tem nenhum efeito. Sei que é a fala dominante que existe hoje na sociedade, mas pra mim não passa de uma fala preconceituosa daqueles que entendem que a escola é pra poucos. Nós temos uma curva no Brasil positiva de evolução da educação, muito aquém da necessária ainda, porque nós temos uma defasagem histórica de séculos, e não vamos conseguir recuperar isso da noite pro dia, mas a educação vem num quadro de melhora e não de piora.
Agora incomoda, mesmo numa instituição particular, quando você ouve um aluno falar “o que esse outro aluno está fazendo aqui?” o que é que ele está dizendo com isso? Ele está dizendo que aquele aluno não é a altura daquela universidade, aquele público não deveria estar na universidade, e acho que as políticas compensatórias estão colocando em discussão todo esse preconceito existente na sociedade.
- Algumas universidades e programas como o Prouni utilizam a nota do ENEM como forma de ingresso. Você acredita que esta é a melhor forma de avaliação?
Acho que é a melhor que temos hoje, não sei se é a melhor forma daqui algum tempo, o que eu sei é que o vestibular é uma forma perversa de seleção para a instituição. Porque, o que você tem hoje? Quem estuda a vida toda em escola pública, quando chega na universidade vai para a escola particular, quem estuda a vida toda em escola particular quando chega na universidade vai para a escola pública. Então o que aconteceu aí? Você transformou o publico em privado. Aí mora o problema. Se a instituição é publica, ela precisa ser de domínio público, e você precisa ter espaço para aqueles que usufruíram do serviço publico a vida toda. Eu acho a coisa mais coerente do mundo projetos que avaliem o aluno ao longo do tempo eu acredito que é a melhor forma.
- Qual a sua opinião sobre as políticas compensatórias existentes na área da educação hoje?
Único cuidado que tem que ter é que, se é politica compensatória, ela precisa ter data para terminar. Porque senão os problemas continuam existindo, você não corrigiu os problemas. Veja, por exemplo, educação de jovens e adultos: tem que ser transitório, porque se daqui a 50 anos nós estivermos discutindo a educação de jovens e adultos significa que nós não corrigimos as falhas do sistema que fizeram com que você tivesse um número “X” de analfabetos na vida adulta.
Se eu tenho uma escola para todos desde o princípio, a educação de jovens e adultos não faz sentido, ele não precisa, ele já teve a educação ao longo do tempo. As cotas, de modo geral, é a mesma coisa, por que que você tem? Ninguém gosta de cota, porém cota não é uma questão de gostar, é de ser necessário corrigir erros históricos. Quando tivermos uma sociedade em que as pessoas tenham as mesmas oportunidades, elas não precisam de cota, não só nas escolas, você não precisaria de cota em partidos políticos para dizer que 30% das vagas são das mulheres numa sociedade que tem a maioria das mulheres. Essa lei existe até que discussões sejam feitas na sociedade e que os homens e as mulheres tenham os mesmos direitos.
- Estes programas de concessão de bolsas de estudos realmente democratizam o acesso à educação?
De verdade, eu os defendo. No caso do Prouni, por exemplo, claro que tem toda uma discussão sobre colocar verba pública em escola privada, que quando um aluno do Prouni ingressa na universidade a instituição recebe, ela tem isenções, recebe um valor pela mensalidade desse aluno. Eu não sei se é o melhor modelo, mas eu acho que é um modelo necessário no momento. Brasil é muito grande, como é que você faz pra dar vazão a todas as pessoas dessa geração que estão estudando agora? Essas políticas que tragam para onde tem vaga já que as universidades publicas hoje não são acessíveis a todo mundo.
Acho que essas politicas têm que ser repensadas a todo momento, elas precisam ter prazo. Quando você cria um programa como este por um prazo de 10 anos é inviável, já que esse tempo é insuficiente para corrigir injustiças que ocorrem por mais de 300 anos.
Minha opinião? Hoje é o melhor que pode ser feito.
Arnaldo dos Anjos

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