quarta-feira, 1 de abril de 2015

A internet acaba sendo um outro gueto ao qual recorremos para socializar, pois o único flerte permitido nos espaços de socialização presencial é o cisheterossexual. Mesmo no gueto, que seria uma válvula de escape para nós, somos ojerizadas





A narrativa de travestis, mulheres transexuais, homens trans e pessoas não-binárias é permeada pela palavra exclusão. Somos excluídas de nossas casas, de espaços públicos e privados, materiais e virtuais. Até em aplicativos de encontros, algo banal para qualquer pessoa cis, nossa presença é rejeitada.

Entre muitas outras coisas, sou uma mulher (trans) não-binária. E desde que fiz meu perfil no Tinder, um dos tais aplicativos, fui alertada e bloqueada por denúncias de: nudez, mal comportamento, e spam, mesmo sem ter alguma foto nua publicada, sem ter ofendido alguém ou ter agido mal. Já vi homens (cis) compartilhando fotos de seus pênis eretos com legendas obscenas, me enviando mensagens de teor pornográfico, e nunca tiveram problemas com denúncias. Pelo contrário, são incentivados. Mas eu, enquanto pessoa trans, não tenho esse privilégio, não tenho o direito ao afeto, à sexualidade, nem a estar em determinados espaços, interagindo com homens cis e heterossexuais.

A página do Facebook chamada "Transder da Depressão" mostra, através de seus relatos-denúncias, que além da exclusão, a população T enfrenta diariamente a exotificação e a hiperssexualização em diálogos com assediadores, T-Lovers [1], e pessoas cis que nos tratam como homens que se vestem de mulher e vice-versa. Se nos espaços virtuais banais essa violência é tão comum, fora deles é muito pior.

A internet acaba sendo um outro gueto ao qual recorremos para socializar, pois o único flerte permitido nos espaços de socialização presencial é o cisheterossexual. A sexualidade de travestis, mulheres transexuais e não-binárias é socialmente limitada à prostituição. Homens trans, que nem à prostituição podem recorrer quando a sociedade os marginaliza, além de serem privados de sua sexualidade por não serem aceitos como homens, estão sujeitos ao estupro corretivo. E mesmo no gueto virtual, que seria uma válvula de escape para nós, somos ojerizadas. E eu lhe pergunto: Tinder para quem?

[1] pessoas que fetichizam pessoas Trans












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