Se você é uma pessoa sexuada e/ou romântica, certamente já foi flechada pelo Cupido [1] mais de uma vez. Seus alvos podem parecer aleatórios mas, acredite, suas flechas são criteriosas.
Nosso afeto é construído. Desde a amamentação aprendemos o que é ou não belo; como e com quem devemos ou não transar e amar. Assim as identidades sexuais/românticas (hétero, homo, bi ou panssexuais/românticas) são permeadas pelos filtros sociais misóginos, racistas, homolesbobifóbicos, transfóbicos, travestifóbicos, gordofóbicos e capacitistas. É daí que surgem os gays que não curtem "homens afeminados", lésbicas que não curtem mulheres trans, fazendo prevalecer a solidão das pessoas transgêneras. Dessa má educação do afeto também surge a solidão das mulheres negras, das pessoas gordas, das pessoas deficientes.
Esse afeto seletivo não é novidade. Na Grécia Antiga o amor entre homens não era ojerizado, porque a mulher era vista apenas como um ser inferior indigno de amor, que tem como finalidade reproduzir e cuidar do lar. Percebem como o afeto foi, e continua sendo, um ato político? Rejeitar alguém por sua condição minoritária é reafirmar a marginalização dessas pessoas. Essa provocação é ainda mais válida aos homens cisgêneros militantes de esquerda: do alto de seu privilégio masculino, quem são as pessoas dignas do seu amor? Há diferenças entre parceires somente casuais e pessoas com quem vocês se relacionam formalmente? Seu amor livre é livre de opressões? Militância começa na desconstrução de si, companheiros.
A discriminação não está apenas na agressão, no discurso de ódio, mas também na segregação social violenta que enfrentamos (falo em nós porque, sendo uma pessoa trans, estou inevitavelmente sujeita à solidão), que é consequência direta da divisão de classes. Óbviamente ninguém tem a obrigação de relacionar-se com quem não deseja, mas é imprescindível perceber o quanto as escolhas afetivas reproduzem opressões.
[1] Quando tudo era Caos, Eros bailou e fez os elementos todos se condenarem e se unirem, formando o Cosmos. Eros, a união primordial, é o Cupido, que com suas flechas causa o amor, o afeto, o tesão, a ponte que nos leva a outrem.


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