quarta-feira, 8 de abril de 2015

“Não basta ter os alunos nas faculdades. Queremos ter agentes de transformação, forjados na inquietação dos erros, sonhando em contribuir para mudar, com o ferrenho compromisso com a inclusão, direitos humanos e cidadania”



Falar de políticas compensatórias no Brasil é certamente motivo de polêmica. Programas sociais em geral dividem a opinião pública já que, para alguns, tais programas tem por função pura e simples criar gerações de acomodados e vitimistas. Mesmo provocando muito debate - o que é extremamente positivo, quando não é levado a níveis extremistas e de intolerância - estes projetos continuam sendo criados e, acima de tudo, tem sobrevivido como foco de resistência e luta por condições mais igualitárias.

Frei Davi dos Santos, Idealizador do sistema de cotas e criador do pré-vestibular comunitário “Educafro” é, sem dúvida um dos grandes representantes contemporâneos destes movimentos. O frei mineiro, hoje com 63 anos, é o que se pode chamar de “ativista convicto”. Na época da ditadura, Davi Raimundo dos Santos decidiu ingressar na vida religiosa, movido por um ideal não somente espiritual. Davi optou pelo sacerdócio para que assim pudesse ajudar o povo carente sem ser pego pela repressão. Foi aí que Davi se tornou Frei Davi dos Santos, um franciscano que incorporou em seu histórico de vida os ensinamentos do mentor de sua ordem religiosa: São Francisco de Assis. Foi por entender que a educação e a formação acadêmica são pontos importantes para se quebrar o ciclo de pobreza que assola muitas comunidades que Davi optou por encabeçar projetos que viabilizasse a entrada de jovens negros e pobres em cursos superiores.

O Frei e alunos no 3º Encontro de Estudantes e
Cotistas da UNE
Além de ser um grande defensor do sistema de cotas raciais em universidades públicas, o frei criou o cursinho pré-vestibular comunitário Educafro, que além de atender jovens negros e carentes oferecendo o curso pré-vestibular ministrado em sua totalidade por professores voluntários, também mantém convênio com diversas unidades de ensino superior que disponibilizam bolsas de estudo específicas para os atendidos pelo programa. Da mesma forma que as cotas, o projeto foi alvo de muitas críticas, já que muitos acreditavam que era algum tipo de “privilégio” dado aos contemplados. Os estudantes atendidos pelo projeto, porém, discordam em absoluto. “É um período de muita dedicação. A gente tem que aproveitar cada minuto de aula e se esforçar muito para conseguir entrar na faculdade”, afirma Janaína Castilho, 25, advogada que foi bolsista por intermédio do programa. Janaína, que também é professora voluntária do programa, conta que o período de estudos no cursinho é algo intenso e de muita responsabilidade. Ela lembra que os alunos precisam acompanhar as aulas e ter bom desempenho, além de conseguirem passar no vestibular da própria universidade.

O Irmão da advogada, Luciano Castilho, 30, é formado em geografia e também foi bolsista pelo programa. Luciano é professor da rede pública de ensino por opção, por entender a importância que tem a educação na vida de um jovem. “Aprendi com o Frei Davi e com o Educafro a importância que a educação tem na vida das pessoas. Por isso eu decidi dar aula em escola estadual, mesmo tendo recebido propostas para lecionar em escolas particulares. Quero fazer minha parte também”, conta Luciano.

O trabalho de Frei Davi está para além do simples assistencialismo. Hoje, o Educafro possui mais de 230 núcleos espalhados pelo Brasil e, segundo palavras do próprio frei ao site oficial do Educafro, “Não basta ter os alunos nas faculdades. Queremos ter agentes de transformação, forjados na inquietação dos erros, sonhando em contribuir para mudar, com o ferrenho compromisso com a inclusão, direitos humanos e cidadania”. Frei Davi acredita que no Brasil, a elite ainda carrega o pensamento do colonizador.

Para o franciscano, romper com estes estereótipos e continuar investindo em programas que compensem a população menos favorecida de todo o histórico de abandono, é algo que representa ganhos, não só para o público atendido, mas toda a sociedade.

Arnaldo dos Anjos

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