Vivemos a imperiosa necessidade de opinar (e comumente de modo negativo) sobre qualquer coisa que minimamente abra espaço para isso no final da página
A ignorância é uma violência. Tremenda e assustadora. E hoje refiro-me à violência que ocupa os espaços virtuais de convivência, que prolongam infinitamente os comentários das notícias e postagens e que criam espaços de conflitos inimagináveis para muitos contextos.
Há evidentemente um risco quando todos assumem a sua verdade como A verdade sobre o mundo. O risco implica no desejo de submeter o outro seja pela via da argumentação ou seja pela via da violência a acreditar no poder da sua afirmação. Quando de tudo se sabe um pouco e de nada se sabe muito a argumentação sincera e embasada se torna escassa, abrindo assim espaço para as mais diversas manifestações de ódio e reações exacerbadas de violência a qualquer assunto que se exponha a internet (que devemos assumir, em tempos como nossos, é qualquer assunto).
Recentemente lia um texto de Freud (Psicologia de grupo e a análise do ego, 1976) no qual cita um autor chamado McDougalle que me intrigou pelas correlações que vejo com os movimentos virtuais que há pouco citei. Vejamos, apesar de longa, acredito que a descrição mereça uma atenção mais demorada.
"O juízo com que McDougall resume o comportamento psicológico de um grupo ‘não organizado’ simples não é mais amistoso do que o de Le Bon. Tal grupo ‘é excessivamente emocional, impulsivo, violento, inconstante, contraditório e extremado em sua ação, apresentando apenas as emoções rudes e os sentimentos menos refinados; extremamente sugestionável, descuidado nas deliberações, apressado nos julgamentos, incapaz de qualquer forma que não seja a mais simples e imperfeita das formas de raciocínio; facilmente influenciado e levado, desprovido de autoconsciência, despido de auto-respeito e de senso de responsabilidade, e apto a ser conduzido pela consciência de sua própria força, de maneira que tende a produzir todas as manifestações que aprendemos a esperar de qualquer poder irresponsável e absoluto."
A internet teria proporcionado portanto um tipo de grupo psicológico “não organizado” de onde vemos emanar essas formas de violência verbal que parecem não se justificar? Não afirmaria como certo. O mais provável entretanto é que vivemos tempos de muitas exclamações e CAPS LOCK. Tempos com poucas interrogações sobre o que se ouve e sobre o que se fala. Vivemos a imperiosa necessidade de opinar (e comumente de modo negativo) sobre qualquer coisa que minimamente abra espaço para isso no final da página. Seria essa é uma técnica de sobrevivência, conforme apontara Nietzsche. Precisamos da nossa miopia que estagna verdade para podermos sobreviver em um mundo de tantas possibilidades?
"[...] foi preciso que por longo tempo o mutável nas coisas não fosse visto, não fosse sentido; os seres que não viam com precisão tinham uma vantagem diante daquelas que viam tudo “em fluxo”. Em e para si todo grau elevado de cautela no inferir, toda tendência cética, já são um grande perigo para a vida. Nenhum ser vivo teria sido conservado se a tendência oposta – preferir afirmar a suspender o juízo, preferir errar e criar ficções a esperar, preferir concordar a negar, preferir julgar a ser justo – não tivesse sido cultiva com extraordinário vigor" (Nietzsche em A Gaia Ciência, 1881-1882).
No fundo só a capacidade empática poderá se contrapor a violência desmedida. Apenas quando for capaz de me colocar na condição do outro e tentar por essa via lhe entender poderei ser capaz de amenizar o poder e necessidade do meu julgo desmedido. Teremos nos encontrado. Porém, seria isso possível nas relações fluidas e turbulentas da internet?
Arnaldo dos Anjos
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