Homens trans são inexistentes aos olhos de muitos. Infelizmente há uma parcela da sociedade que atrela feminilidade e masculinidade de alguém a uma genitália
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| Foto: PoL Úbeda Hervàs | Reprodução Flickr |
Pensava que nunca mais iria passar por situações incomodas referentes em meu convívio familiar. Ontem, passei uma situação muito embaraçosa com a minha tia. Ela me mostrando a foto do Buck Angel – Ator pornô e ativista americano dizendo que eu era “zé buceta” alegando que eu e ele não somos homens por inteiro.
Fiquei mal por perceber que por mais explique aos membros da minha família que sou homem independente do que está entre minhas pernas, começa a série de deboches e para piorar o tal nome de registro que parece não sair da boca deles. Por mais que eu expresse o meu incomodo em relação a essa situação.
Vivo a espera de um parecer judicial em relação retificação de meu prenome e futuramente sexo nos documentos. Imagine ter duas vidas em uma em que você é o que é e na hora de utilizar serviços burocráticos rapidamente torna-se aquela outra pessoa que em nada te representa.
Ser homem trans é saber que o seu corpo te aniquila e sufoca. Pois, há uma longa fila para a realização de cirurgias via SUS (Sistema Único de Saúde) e devido a esse cenário desolador muitos como eu buscam alternativas via planos de saúde ou médicos particulares visando amenizar a disforia em relação a intrusos (seios) e outras características tidas como femininas.
Quando assumi minha transexualidade vínculos de amizade foram rompidos pelo fato de haver muito preconceito no LGB em relação à transexualidade masculina. Essas adversidades me fizeram partir para a militância política em busca de forças e também ajudar os outros homens trans que por motivos de integridade física ou também não estarem preparados publicamente sua identidade de gênero.
Conheci muitos coletivos LGBT e busquei conversar com cisgêneros abertamente do que seria um homem trans, quais seriam suas necessidades e por ele ser homem como qualquer outro que sua identidade de gênero em nada interfere em sua orientação sexual. Visitei escolas e universidades para falar sobre o cotidiano, demandas e vivencias dos homens trans e assim familiarizar docentes e discentes dessa realidade para dessa forma ocorrer uma quebra de preconceitos e paradigmas em relação ao que seja transmasculinidade.
Em meio a esse turbilhão me descobri homossexual e entendi que a partir dai iria sofrer preconceito dobrado no meio trans, LGB e sociedade em geral. O que mais ouvi de uma grande parcela de pessoas é que seria mais fácil estar em um gênero feminino para me relacionar sexualmente e emocionalmente como um homem.
A falta de compreensão de que orientação sexual é algo total distinto de identidade de gênero faz com que homens trans que sejam homossexuais, bissexuais ou pansexuais enfrentem situações embaraçosas e muitas vezes com que a sua disforia seja aflorada sem precedentes.
Homem cisgêneros podem ter a orientação sexual que tiverem e ninguém os questiona a respeito de sua masculinidade. Será que a ausência de um pênis deslegitima a nossa identidade de gênero? Será que ter certas características femininas em nosso corpo nos faz menos homens? Será que o corpo é fator determinante para definir a identidade de alguém?
Esses questionamentos me fazem pensar o quanto essa heteronormatividade existente em nosso quadro social nos aprisiona a vivenciar comportamentos de acordo com que o gênero que o nosso corpo expresse.Lamento sinceramente que o pensamento de muitos seja que realizei a minha transição não foi para me tornar mais atraente para ninguém e sim para ter qualidade de vida.
A partir do momento em que assumi a transmasculinidade é que teria de lutar todos os dias para ser respeitado por minha identidade de gênero independente de qualquer procedimento cirúrgico que venha. Pois, a minha masculinidade está em meu ser e não meu corpo. Convido a todos os homens trans que como eu têm dificuldades das mais diversas em seu cotidiano. Lutem para adquirir conhecimentos necessários para não sermos mais invisíveis e, sim, protagonistas de nossa trajetória.
Pois, como sabiamente disse a personagem Tereza interpretada por Fernanda Montenegro em ‘Babilônia’: "A sociedade de vez em quando tenta mudar pessoas como eu. Não consegue e não vai conseguir nunca. Eu tenho certeza, meu Deus, que pessoas como eu e a Estela vão mudar a sociedade".
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