O trote deixou há muito tempo de ser um simples rito de passagem para se tornar território fértil para espetáculos de barbárie dignos dos coliseus romanos
Mais um ano letivo se inicia nas universidades públicas e privadas do país e após as denúncias de estrupo na Faculdade de Medicina da USP e de abusos cometidos em outras instituições, as atenções estão voltadas para o trote, tradicional rito de passagem que marca o ingresso de novos alunos no ambiente universitário, simbolizando o início de uma nova etapa na vida desses jovens. Essa definição quase lúdica esconde muitas vezes a verdadeira face do trote e seus habituais excessos, que muitas vezes beiram a ilegalidade e selvageria.
Além disso, o trote dá margens para uma interessante análise do comportamento humano e de seu gosto pela dominação e subjugação dos mais fracos. Vejamos bem, de um lado temos os veteranos e do outro os calouros. Muitas vezes portadores de uma personalidade ainda fraca, os novos alunos estão dispostos a passar por todo tipo de humilhação para conseguirem a aprovação e simpatia dos mais experientes. Os veteranos usam da estrutura das organizações estudantis para incluir (ou seria coagir?) os calouros, mas não sem antes divertirem-se um pouco com a habitual disposição a agradar dos mais novos.
É justamente nesse momento que o trote vira palco para o lado mais perverso, machista, homofóbico e racista da raça humana. Como esquecer da aluna que foi pintada de negra, acorrentada e chamada de escrava Chica da Silva por veteranos do curso de Direito da UFMG em 2013? Os estudantes argumentaram que tudo não passou de uma brincadeira, mas eu me pergunto: que senso de justiça e humanidade podem ter esses futuros juízes, promotores e advogados se ainda conseguem achar graça no racismo?
Chama atenção também o conteúdo sexual do trote. Além de ser preciso apelidar os rapazes de modo a duvidar de sua masculinidade e as moças para questionar sua "decência", o ritual é o momento perfeito para o aspirante a macho alfa da gangue. Ali os veteramos separam as garotas e usam de sua influência para conseguirem favores sexuais. Se alguém achar que estou exagerando ou que isso faz parte do meio universitário, eu diria que foi justamente a falta de questionamento sobre esse problema que resultou nos estupros ocorridos na Faculdade de Medicina da USP.
As brincadeiras sexuais funcionam como ingrediente de um jogo de dominação e temos de deixar tudo bem explícito porque somos muito bem resolvidos nessa questão, certo? Errado, muito errado. Eu iria além em dizer que boa parte dos jovens que agem dessa maneira são frustrados sexual e afetivamente e precisam nesses momentos utilizar da força para afirmarem sua masculinidade, já que conquistar uma garota usando outros atributos seria missão quase impossível. Não é uma questão de achar que falta-lhes o pudor, mas sim de que eles possuem uma ideia completamente errônea do que vem a ser liberdade sexual.
Sim, o trote deixou há muito tempo de ser um simples rito de passagem para se tornar território fértil para espetáculos de barbárie dignos dos coliseus romanos. Nesse ambiente, é comum a extorsão dos novos alunos a fim de realizar festas regadas a álcool e drogas. Abusos físicos e psicológicos infelizmente repetem-se ano após ano. Os calouros aceitam passivamente o seu papel de oprimido porque sabem que no próximo ano será a sua vez humilhar e oprimir. E assim perpetua-se a estupidez humana. E esses são os futuros doutores e mentes pensantes desse país.
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