Há quem acredite que o racismo é um tipo de ação aberta (visível) em que se agride verbalmente e/ou fisicamente alguém em razão de sua etnia. Essa pessoa certamente nunca sofreu racismo
Falas e uma pausa. Mais falas e outra pausa. Não conseguia assisti-lo. Meu corpo não conseguia assisti-lo, a garganta dava nó e o coração acelerava. A percepção de sentimentos ficava turva. Seria raiva? Seria decepção? Inconformismo, talvez? Perplexidade? Tristeza? Sei apenas que é um misto de sensações indiscutivelmente potentes e mobilizadoras.
Refiro-me ao vídeo recentemente divulgado e que ganhou alguma atenção da mídia. O cenário: uma aula de microeconomia do curso de administração da Universidade de São Paulo. Os atores: estudantes brancos, estudantes negros e a professora. O tema do enredo: cotas raciais e o sistema de entrada na universidade. O desenrolar: uma barbárie. Bem, acredito que você precisará assistir ao vídeo, como eu, sinto por isso. Há dores necessárias.
Esse vídeo é emblemático e traz elementos para as mais variadas análises e olhares (assim como os sentimentos que ele provoca). Me atentarei apenas a dois deles: o racismo e o sistema educacional.
Há quem acredite que o racismo é um tipo de ação aberta (visível) em que se agride verbalmente e/ou fisicamente alguém em razão de sua etnia. Essa pessoa certamente nunca sofreu racismo. A exclusão das maiores populares é um processo que não se dá (apenas) na vulgaridade das ações que hoje são punidas em lei. Eventualmente, é bom informar aos desavisados que isso é crime. Sendo assim, a crueldade e o desejo de dominação e opressão carecem de ganhar outros espaços, ele precisa ser sutil a ponto de confundir as mentes mais míopes. Ele precisa se cobrir de discursos igualitários para ganhar aceitação e validação social necessária a sua existência. Afinal, em uma sociedade como a nossa, todos dispõem das mesmas oportunidades de crescimento e desenvolvimento social e econômico, o que apenas é negado a vagabundos que não se esforçam o suficiente.
Não, meu caro rapaz. Sinto lhe dizer, não é só estudar e entrar!A educação obedece, muitas vezes, a mesma lógica de exclusão do racismo, promovendo a uns em detrimento de outros. A manutenção de uma educação de baixa qualidade e sem fomento a qualquer discussão crítica do mundo e da realidade tem uma função muito específica, a de formar mão de obra técnica e básica para manutenção das funções que sustentam o mercado. Até aqui, não conseguiu e nem pretendeu formar gente pobre (e preta) para ocupar os espaços universitários que nunca lhes havia sido destinado. Isso só acontece em detrimento do processo educativo e não por sua causa.
Até porque se olharmos com bastante atenção veremos que os processos seletivos das universidades não obedecem a qualquer lógica plausível para ingresso. Como dizia Rubem Alves, se submetêssemos todo o corpo de docentes da USP ao seu próprio processo seletivo é muito provável que a maior parte deles não fosse aprovado. O vestibular é um engodo! Uma forma de manipulação dos sistemas educacionais que o fazem funcionar em torno de uma prova com questões que provavelmente serão esquecidas nos primeiros anos após a sua realização. Estimula uma formação conteudista de valor sempre duvidoso.
Nesse ponto, chegamos a outro momento crítico, o de perceber que muitos estudantes que passam nos famigerados vestibulares como FUVEST, muitas vezes carregam em si o mesmo conhecimento histórico e ético de um bebê. Incapazes de exercer o mínimo de empatia e solidariedade, colocam-se em uma posição confortável de julgamento de quem não se dispõe a sair da bolha mágica de conforto para pisar o chão sujo de sangue da História e das periferias. Sangue negro.
Por esse motivo, a famosa frase de Paulo Freire: “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica.”
Mas devo dizer que apesar da dor provocada pelos relatos das garotas e garotos do vídeo, também um lampejo de esperança surge. Porque estamos ocupando, estamos invadindo, estamos existindo onde não podia. Tem negro quebrando o silêncio e denunciando a violência e esse ato é humanizador porque liberta não só os oprimidos, mas também os opressores.
Então há de ter negro, há de ter travesti, há de ter pobre... Que as maiorias populares resistam e persistam, para que voltem as suas comunidades como agentes transformadores e multiplicadores. E que o canto de Chico inspire:
“(...) Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia (...)”
Assista!
Arnaldo dos Anjos
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