quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

"Falar sobre cisgeneridade é político. Apontá-la como condição privilegiada é tirá-la do lugar naturalizado que ocupa..."

Há algo dificilmente reconhecível pela visão social de algumas pessoas que lutam por ideais: os privilégios. A tão comum negação de si enquanto sujeito privilegiado reproduz uma das sutis táticas de manutenção do poder: dificultar a união das classes oprimidas. Quando não se reconhece os próprios privilégios, apaga-se a opressão que os permeiam, consequentemente invisibilizando quem eles atingem. Não obstante, quando pessoas oprimidas em seu legítimo lugar de fala denunciam essa negação são geralmente silenciadas pelas pessoas privilegiadas.

 Um dos privilégios mais negados é o cisgênero (ou, abreviadamente, cis). Como disse Hailey Kaas [1], uma pessoa cis é aquela que politicamente mantém um status de privilégio em detrimentos das pessoas transgêneras [2]. Esse privilégio se evidencia quando a cisgeneridade não é patologizada pela ciência, negligenciada e criminalizada pelo Estado, demonizada pela religião, socialmente marginalizada. Pessoas cisgêneras não têm seu gênero questionado e deslegitinado, ainda que ele também seja resultado de uma construção. Pessoas cisgêneras não necessitam de laudos médicos que indique um transtorno de identidade sexual para ter acesso a determinados procedimentos médicos-cirúrgicos. Também não são expulsas de casa e mortas nas ruas por assumirem seu gênero, bem como não compulsoriamente prostituídas ao não serem aceitas em empregos formais por conta de seu gênero.

Falar sobre cisgeneridade é político. Apontá-la como condição privilegiada é tirá-la do lugar naturalizado que ocupa, e entendê-la enquanto identidade política, construída socialmente tanto quanto a transgeneridade. Não obstante as tentativas de silenciamento presentes em discursos [3] que fazem malabarismos teóricos para defender a não existência cis ou caracterizá-la como misógina, é importante entender que a cisgeneridade não presupõe aceitação das imposições patriarcais sobre o gênero. Mulheres cisgêneras feministas, que performam seu gênero fora da norma machista, que lutam pela autonomia de seus corpos e empoderam-se em suas sexualidade, ainda são mulheres cisgêneras. Homens cis gays  têm utilizado a palavra "afeminado" como identidade política. Esses homens, ainda que afeminados ainda são cis.

Precisamos conversar sobre cisgeneridade. Precisamos falar sobre sua compulsoriedade, sobre sua norma coerciva, e sobre sua existência sintomática. Enquanto pessoas trans, precisamos apontar esse privilégio, porque o silêncio fortalece o CIStema opressor. O silêncio não constrói resistência nem nos defenderá [4]. Não nos calemos, para que o cispatriarcado não prevaleça sobre nosso silenciamento.


[1] Cisgênera é a pessoa cujo gênero é o mesmo que lhe foi atribuído ao nascer. Leia mais aqui
[2] Mulheres e homens trans, travestis e pessoas não-binárias
[3] Como este, e tantos outros 
[4] leia mais em aqui



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