sábado, 17 de janeiro de 2015

O fato é que a vida é uma eterna espera. Esperamos o dia em que seremos mais felizes, mais realizados, mais corajosos...


Arte:Milio

Uma árvore seca em uma região árida. Dois homens maltrapilhos conversam em frases desconexas e um deles solta: “Não há mais nada a fazer”. Logo depois ficamos sabendo que ambos estão à espera de um homem chamado Godot. Eles não lembram bem o motivo do encontro, mas a esperança é de que algo bom lhes aconteça. Não possuem hora marcada. Pode ser que ele venha hoje. Quem sabe amanhã. Eles já não se lembram há quanto  tempo estão ali e muito menos sabem qual será a duração da espera. Enquanto isso, eles conversam e buscam se distrair.

Podemos resumir assim a peça teatral “Esperando Godot” do escritor irlandês Samuel Beckett, uma das obras mais discutidas e encenadas da dramaturgia mundial. Escrita em 1952, a peça inaugura o teatro do absurdo, que bebe da fonte do surrealismo, dadaísmo, existencialismo e até da obra de Franz Kafka para expor a inutilidade da existência e da passagem do homem pela terra. Fruto do pós-guerra e do medo crescente da Guerra Fria, o jovem Beckett criou na verdade uma obra atemporal, que divide o público até hoje.

Muito já se discutiu sobre seu provável significado. Crítica social? Alegoria da fé? Freud explica?  “Esperando Godot” pode ser tudo isso e muito mais, pois no fundo ele trata de uma questão muito mais fundamental: a condição humana. A espera dos protagonistas Estragon e Vladimir e suas interações com os coadjuvantes Pozzo e Lucky são na verdade metáforas de nosso vazio existencial , de nossos anseios e desalentos.

O fato é que a vida é uma eterna espera. Esperamos o dia em que seremos mais felizes, mais realizados, mais corajosos. Mesmo nos momentos de conquista, a felicidade é apenas instantânea e sempre precisamos projetar um novo objetivo que preencherá o vazio de nossas almas. Os verdadeiros conflitos são ignorados porque talvez seja menos doloroso viver pelas mentiras suaves. O inferno é aqui e a salvação não tem dia pra chegar. Beckett sabia muito bem disso.




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