É tempo de não precisar associar mais o trabalho a origem de seu nome, que remonta a um objeto de tortura
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| Foto: Igor Ojeda/Repórter Brasil |
Estava no shopping, curiosamente, quando uma mulher com o filho nos braços pede alguma ajuda. Seja em dinheiro, seja em comida. Eu, imbuído do mais genuíno espírito burguês lhe ofereci algumas moedas que tinha em minha carteira. Para sorte dela e ainda mais minha, um homem aproximou-se. A princípio não reparei bem e fiquei receoso que fosse algum guarda do local que iria convidá-la a retirar-se. Muito pelo contrário. Alguém com a sensibilidade humana (um tanto mais aguçada que a minha) ofereceu a ela a oportunidade de servir-se em um restaurante. Encerrava-se ali o episódio e fomentava-se em mim a necessidade de escrever um texto sobre o qual pensara antes.
Paulo Freire (sempre ele nestes textos) dizia que era contra a caridade que se implanta antes da justiça social. Com essa frase entendi que ainda que necessárias, as práticas assistencialistas devem representar uma ponte de sustentação, enquanto o verdadeiro ato de dar força ao povo é fomentado. E não se entenda isso no sentido capitalista de que não se dá o peixe e se ensina a pescar. Mujica, o presidente, já falava que quando um povo tem a vara roubada e o barco destruído, começa-se dando o peixe. O que venho a sugerir por outra via, é a possibilidade de relações de trabalho outra, mais humanas e portanto, mais solidárias e menos excludentes.
Cito curiosamente o fato de estar no shopping porque podemos reunir diferentes personagens de uma mesma lógica de sistema. Estavam lá os consumidores (eu inclusive) que dispunham da moeda necessária para adquirir determinados bens através trabalho, tal como os outros trabalhadores (em condições deprimentes, observe-se bem) que também estão lá a trabalhar para garantir a aquisição dessa moeda, tem também a figura não pessoal dos grandes conglomerados econômicos (os maiores beneficiados desse contexto) e por fim aquela mulher e seu filho, o efeito não tão colateral assim que representam os excluídos desse sistema econômico.
Muito tem se discutido sobre os problemas inerentes ao atual modelo econômico, como: as condições degradantes de trabalho, a relação desproporcional entre os rendimentos dos trabalhadores e proprietários, o adoecimento físico e mental gerado pelas rotinas desgastante, o consumo depreciativo das relações e do meio ambiente entre outras. Diante disso, quais caminhos podem ser tomados? Como fugir dessa forma de trabalho alienado, alienante e excludente. Propostas diversas têm surgido à curto, médio e longo prazo. Desde reformulações totais do sistema econômico a propostas de gestão alternativas dos modelos atuais. Uma dessas soluções e a proposta de Economia Solidária.
Segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (visite aqui), alguns dos princípios gerais da Economia Solidária implicam em:
1. a valorização social do trabalho humano,
2. a satisfação plena das necessidades de todos como eixo da criatividade tecnológica e da atividade econômica,
3. o reconhecimento do lugar fundamental da mulher e do feminino numa economia fundada na solidariedade,
4. a busca de uma relação de intercâmbio respeitoso com a natureza, e
5. os valores da cooperação e da solidariedade.
E como se efetivam esses princípios na prática? Existem diversos formatos de empreendimento solidário, um dos mais conhecidos e divulgados são as cooperativas. Para que sejam efetivamente considerados empreendimentos da economia solidaria, as cooperativas por exemplo, dispõe de diferentes equipamentos de gestão e produção que procuram garantir relações mais equitativas no ambiente de trabalho, como a tomada de decisão por instâncias democráticas (assembleias, por exemplo) e a participação de todos os colaboradores nos lucros do empreendimento de forma justa. É interessante notar que o próprio movimento da Economia Solidária procura fundar-se a todo momento a partir da interação com todos os envolvidos em momentos de debate e de fazer conjunto.
Justamente ao observar na Economia Solidária uma proposta de trabalho interessante as alternativas hegemônicas é que ela tem se deslocado para o campo acadêmico e gerado profundo interesse. Prova disso é a incubadora de cooperativas da Universidade de São Paulo, que oferece assistência inicial a quem pretende iniciar um empreendimento solidário (acesse pelo site).
É tempo de não precisar associar mais o trabalho a origem de seu nome, que remonta a um objeto de tortura. É tempo também de desnaturalizar a presença de excluídos no sistema econômico. É tempo de reconhecer por fim que dispomos de outros caminhos para que nenhuma mãe necessite mais carregar os filhos nos braços para pedir um pouco de comida. Que se alimente a fome, que devolvam as varas, que se devolvam os barcos, que se devolva o mar, para então se ensinar a pescar e tirar do oceano apenas o que se precisa e partilhar em comunidade.
Arnaldo dos Anjos
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