quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Quem te ensinou a amar? Como você aprendeu a amar do jeito que você ama? 


"Depois de uma escolha consciente e livre seja também honesto de deixar amar quem vive o amor de outro jeito"
Talvez você não tenha parado para pensar no amor como uma questão aprendida. Mas há indicativos o suficiente de que ele o seja. O amor, ou para melhorar, amar, não é algo natural e universal que se manifesta do mesmo modo em cada sociedade e grupo humano. Muito pelo contrário, é justamente o seu caráter cultural e social que o convoca a assumir características peculiares nos diferentes pontos do mundo. É claro, o processo de globalização cumpre um papel, intencional ou não, de diminuir as diferenças e homogeneizar realidades fazendo parecer, por exemplo nas sociedades ocidentais, que o amor monogâmico (heterossexual?) é o único modo correto, normal e adequado de se amar. É o natural. 

Desde pequeno passamos por processos de socialização eficazes que visam nos inserir no mundo social ocupando os papéis necessários para a manutenção de uma determinada estrutura. Esse processo de socialização é realizado em primeira instância pela família, posteriormente pela escola e depois pelo resto da nossa comunidade. Essas duas primeiras instituições tendem a ocupar o papel mais importante naquilo que virá a se consolidar como nossos princípios e preceitos a respeito da vida. O amor não foge a essa regra. Da nossa sexualidade (de modo abrangente, não como sinônimo de orientação sexual) ao modo como demonstramos afeto há muito do que aprendemos a partir de diferentes modelos, com nossos pais e outras pessoas, em filmes, livros, propagandas e uma infinidade de outros agentes. Portanto, sobre nossos corpos e amor existe as amarras do espaço-tempo em que vivemos. 

Veja, não nego aqui a existência de uma necessidade básica de filiação e contato sexual que seja universal. Esse ocupa um papel muito claro na sobrevivência de qualquer espécie, a nossa inclusive, garantindo assim nossa perpetuação no planeta. Porém, tudo aquilo que foge ao espectro instintual desse contato é aprendido nas nossas relações com os outros. Ou seja, como afirmei lá em cima, aprendemos a amar. Agora, a pergunta que precisa ser repensada é: a forma como amamos hoje, nos faz feliz? Ou ao menos nos torna mais saudáveis? Me aterei a tratar do amor conjugal (Eros), ainda que imagine que generalizações das reflexões seguintes possam ser feitas para os demais tipos de amor. 

Possivelmente uma resposta razoável às perguntas anteriores é: não a todos. Enquanto indivíduos biologicamente e historicamente únicos, ou seja, diferentes entre si, não pode se esperar que todos manifestem o mesmo interesse na hora de realizar a sua satisfação amorosa e sexual. Alguns gostam de meninos, outros de meninas e outros ainda de ambos ou de nenhum. Alguns gostam de um, outros de dois e há quem prefira viver sem precisar contar. Na hora de obter prazer então, as peculiaridades são muitas para se fazer mencionar. O fato é que toda diversidade do amor passou a ser castigada sob um mito do Amor, que expressa apenas um dos jeitos de se amar. 

Esse Amor é insistentemente veiculado pelas mais diferentes formas de normatização do indivíduo, dê-se destaque no Brasil, à família e às muitas instituições religiosas. O mito do amor romântico para além das origens filosóficas que abrangem mais do que o meu conhecimento poderia expor satisfatoriamente, ganha força e se espalha na proposta de sociedade regida pelo capitalismo. Isso, porque a transmissão dos bens acumulados ocupa uma função muito importante neste meio social, levando o casamento monogâmico a um status no mínimo desejável. A religião também, como exemplo, de origem judaico-cristã que vieram a se estabelecer como dominante e hegemônicas por um tempo, instituíam a filiação de um homem com uma esposa, tecendo normas rígidas de conduta moral para o relacionamento entre sujeitos. 

Sendo assim, uma vez transmitido e perpetuado essa forma de Amor, as demais passaram por um processo de demonização social, atribuindo como características de seus participantes atributos como perversão e imoralidade. Um policiamento eficaz faz com que muitos sujeitos se submetam sem questionamento a essa prática do amor, mesmo quando a percebem como mais prejudicial que benéfica ao seu dia-a-dia. Isso porque as regras eficazes a respeito de como se ama foram de tal modo apropriadas pelos indivíduos que qualquer reflexão no sentido contrário é fortemente rechaçada por eles próprios, ainda que em sofrimento. 

E nesse caminho em que tenta se passar por o que não é, surgem os efeitos colaterais: ciúmes, traições, agressões... Evidentemente muitos tipos de relações estão sujeitas a essas mazelas, mas naquelas em que se prevê o outro como propriedade única e exclusivamente minha há de se reconhecer que elas devem ser maiores (valeria a pena um estudo sobre isso). Também em nossos tempos outras ideologias sustentam o mito do Amor romântico, como o machismo que propicia aos homens viverem relações extraconjugais enquanto o julgo do bom comportamento recaí sobre as mulheres, as quais são ensinadas desde sempre pelas boas princesas a aguardarem a aparição fantástica de seu príncipe encantado. 

Diante disso e imagino que não há pouco tempo, formas alternativas a esse amor têm surgido, como as relações livres, o poliamor, a poligamia... etc. As relações não-monogâmicas compõem-se de outras concepções a respeito do sexo, da afetividade, do amor, da lealdade. Colocam em cheque deste modo princípios muito caros a monogamia como a exclusividade de parceiros e relações herméticas. Enfrentando seus próprias dilemas essas formas de amor têm que se haver ainda em uma batalha com o mito do Amor. 

Talvez poderia arriscar que as outras formas de amar começam a surgir como o que na psicologia institucional de Lapassade chamamos de “movimento instituinte”, é portanto uma força no sentido de modificar as estruturas de uma instituição que se tornou burocrática, opressora e cristalizada, o nosso mito do Amor. Trata-se de uma tentativa de retomada da palavra por àqueles que não se sentem contemplados por uma das manifestações humanas que covardemente é ensinada como sendo a única possível. 

B. F. Skinner, psicólogo norte-americano, possui uma frase que me ensinou profundo respeito a vida e a ciência, diz ele: “Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente.” E aqui está o problema do mito do Amor, ele privou as pessoas do contato com o mundo externo e com o mundo que possuem sob a pele. Vivem sobre os passos que lhes ensinarem a viver sem disposição para experimentar a verdade disso para si mesmos. 

Agora, uma vez que tenha perguntado a si mesmo quem te ensinou a amar e como você aprendeu a amar do jeito que você ama, e que também se perguntou se o jeito que você ama te faz feliz, você pode perguntar: 

De que jeito eu quero amar? 

E depois de uma escolha consciente e livre seja também honesto de deixar amar quem vive o amor de outro jeito.

Arnaldo dos Anjos







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