quarta-feira, 25 de junho de 2014

Reprodução - Fernando Frazão/EBC
O ato de manifestar-se é uma experiência que ainda precisa crescer muito no Brasil, para que não se conforme aos moldes de uma crítica vazia e ingênua que caia mais para o fatalismo

Qual a forma mais legítima ou acertada de lutar pelos seus próprios direitos? Como defender-se da brutalidade de quem ataca a dignidade e oprime pela violência simbólica e física? Essas são perguntas que perpassam as discussões sobre a forma que um povo tem de manifestar-se contra instituições e formas de governo que não atendem aos interesses de todos. E é sob essa discussão que táticas como a dos black blocs vem ganhando amigos e inimigos, dentre os que estão no poder e dentre os que tentam desestabilizá-lo.

Esse texto nasce sob controle dos recentes fatos diante dos movimentos contrários à Copa e de materiais interessantes com que tive contato (em especial os textos dos blogs A razão inadequada  e Viomundo) e que lançam questionamentos à visão deturpada que a grande mídia lança sobre esse fenômeno e problematiza a participação dessa forma de manifestação na promoção de mudanças no país.
Sou um profundo crente (e crença talvez seja o que melhor define) do processo democrático mediatizado pela palavra. É a crença na palavra que move o processo político no sentido mais humanizador. A isso chama-se diálogo. E fui ensinado a recorrer a ele desde os momentos mais tenros da vida. Mas pode o diálogo sustentar toda a ação política? Ainda mais quando a voz dos menos afortunados é suprimida pelo som do tiro e sua visão obscurecida pelo gás?

Historicamente os black blocs surgem como uma tática de defesa, comungando com movimentos sociais na luta contra toda forma de opressão, em especial as impostas pela forma de organização econômica e política do capitalismo. A sua forma de ação, marcou-se pelo ataque aos símbolos da opressão como as instituições financeiras (por isso os bancos e concessionárias), o Estado (alguns equipamentos específicos como os referentes à polícia) e a mídia. E é justamente sua forma de ação concretizada em paus e pedras que alarma a alguns tantos e agrada a outros.

É fato que a tática vem ganhando repercussão e preocupação, a ponto de contar com iniciativas do governo, na figura do Ministro Gilberto Carvalho, para tentativas de diálogo tendo em vista a Copa do Mundo que está acontecendo e os protestos contrários que surgiram com a força do “Não vai ter copa”. Sendo assim, há um indicador de que grupos vem optando por esse caminho para dar voz e espaço para suas reivindicações e suas falas. Pode-se então afirmar esse jeito, como não sendo um caminho para a política? Serve como verdade tão somente a categorização deste grupo como vândalos e seu despacho para as cadeias?

Michel Foucault defendia a ideia de que se tornou necessário a produção de corpos dóceis e úteis para que fosse possível a manutenção de certas estruturas produtivas e funcionamento social. O que incomoda tanto nos black blocs é o fato de que haja uma negação tão contundente desse docilização e um expurgo tão violento da falsa utilidade de algumas estruturas. Faz lembrar de outros fenômenos manifestantes do início do ano, que inventaram de andar por aí a fazer rolezinho esquecendo o que lhes fora ensinado.

O ato de manifestar-se é uma experiência que ainda precisa crescer muito no Brasil, para que não se conforme aos moldes de uma crítica vazia e ingênua que caia mais para o fatalismo do que para propostas de mudança verdadeiras e eficazes. Há portanto de se crescer na forma de exercer política e talvez o fenômeno black bloc seja indicio de pelo menos uma coisa: de que se se está mudando e tentando algo diferente. Acompanhemos então o resultado dessas mudanças e suas evoluções.

Arnaldo dos Anjos

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