Diferente do que alguns podem imaginar, existem muitas outras formas de se fazer educação
Ao retroceder nos textos que escrevo, pude notar – com importante surpresa – que carece-se de evolução. O que quero dizer é que tecidas as críticas sociais a grande quantidade de fenômenos e problemas do nosso cotidiano, nos tornamos sedentos de opções. E é necessário dar voz a isso. Como evitar a repetição do mesmo em um ciclo infindável de caminhos sem solução? Pensando nisso, lançarei uma série de textos procurando explanar os diferentes caminhos que se tem encontrado para solucionar os grandes dilemas sociais. Comecemos pelo meu preferido: Educação.
Na última terça-feira (02) foi aprovado o plano que implicará no investimento de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) na Educação. Se em verdade o investimento financeiro em educação é necessário e bem-vindo, quando aplicado a estruturas pedagógicas e tecnológicas disfuncionais, torna-se mero desperdício de verba pública. Uma afirmação dura, mas que visa justamente negar que o grande problema da educação brasileira se solidifique em razão de uma única causa, a financeira.
Possuímos escolas arcaicas. E apesar de poucas mudanças terem acontecido efetivamente em grande escala, muitas discussões têm sido fomentadas ante os contínuos fracassos do modelo educacional hegemônico. Uma estrutura de escola francesa do século XVIII jamais poderia dar conta de uma realidade cultural e temporal tão distante. Logo, isso se manifesta nos altos índices de crianças inadaptadas, que velozmente são conduzidas aos consultórios médicos e psicológicos para que possam ser reestabelecidas a esse mesmo sistema. A violência na escola também se torna problema público e o aprendizado significativo apenas uma possibilidade longínqua.
Currículo fixo e generalizado, gradação em séries, turmas enfileiradas e homogeneizadas, relações hierarquizadas e burocráticas. Essas são algumas das características que dão forma a maioria das escolas que nossas crianças frequentam. Logo, aprender torna-se uma obrigação enfadonha e desinteressante e a escola o suplício diário a ser cumprido. A escola ganhou nova função: de conformidade. Conformamos os sujeitos a ocuparem um determinado espaço e posição na sociedade. Para isto precisamos da escola. Mas e o que aconteceu com a proposta de aprender?
Diante disso e já há muitos anos, diferentes educadores e profissionais das mais variadas áreas vem pensando outras formas de se educar. E talvez aqui comece o primeiro passo para uma educação melhor. Não há um único caminho. Diversas propostas são experimentadas de forma diferente pelas diferentes pessoas. Cabe, portanto, não almejar uma solução única, mas ao contrário, permitir que a pluralidade de caminhos traga aos sujeitos (neste caso, as crianças e adolescentes de modo especial) a possibilidade de escolha de um caminho melhor.
Nesse sentido, uma proposta fantástica tem sido fomentada na cidade de Cotia em São Paulo, chamado Projeto Âncora. Existindo desde de 2005, a partir de 2012 funda uma escola de nível fundamental baseada na proposta pedagógica da Escola da Ponte, contando inclusive com apoio do professor José Pacheco, que conduziu essa forma de experiência pedagógica na sua origem em Portugal. E o que essa escola tem de tão diferente?
A primeira grande diferença reside na compreensão do desenvolvimento de cada sujeito e do que é uma criança. Reconhecendo que as crianças possuem interesses, necessidades e conhecimentos e que nesse contexto também se configuram como únicas e diferentes de todas as demais, não é congruente a sua padronização. Sendo assim, as crianças aprendem coisas diferentes cada qual no seu próprio tempo. É isso mesmo que você entendeu. Não há séries ou separação por idade ou se quer currículos padronizados.
Usando o mundo como cenário, a criança desenvolve projetos com base nos seus interesses e desejos. Aprende a pensar métodos de conhecer aquilo que lhe interessa: o que já conhece, como conhecer mais, o que precisa para conhecer, quem pode ajudar, como avaliar o que foi descoberto. Assim a criança está implicada e debruçada sobre o desenvolvimento de competências básicas em como aprender, trabalhando naquilo que lhe dá prazer. Também são elaboradas conjuntamente (criança e educador) roteiros de atividades a serem cumpridas e que a ajudarão no desenvolvimento de competências.
Claramente as crianças não são abandonadas a própria sorte. Contam com uma proposta pedagógica que dá suporte a essa forma de aprender. Um dos dispositivos é a presença de um tutor que acompanha a criança, a orienta e verifica os projetos. Esse mesmo tutor é responsável por mediar as relações entre os diferentes componentes da escola. Para além disso, as crianças atuam de forma efetiva na escola do ponto de vista político, tendo voz e voto pela participação em assembleias, por exemplo. Quanto a avaliação, ela é continuada. De modo que também os estudantes são convidados frequentemente a tomarem consciência do que sabem e do que podem melhorar. Ah... as crianças também têm liberdade para se locomover pelo espaço que conta com, por exemplo, áreas verdes, quadras e um circo (!).
Todas essas informações e outras tantas podem ser encontradas no site do projeto. Visite. Diferente do que alguns podem imaginar, existem muitas outras formas de se fazer educação. Experimente. Permita a você e a seus filhos vivenciar outras relações e lutar para que a escola seja fonte de conhecimento e prazer. Vivemos outros momentos da nossa história, a Educação também precisa viver.
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