segunda-feira, 12 de maio de 2014

Leandro Craveiro
Certa manhã sonhei ao concreto aquilo que o concreto sempre teimava em dizer, “sonhe em meu frio, acorde em meu calor, aprecie e amargue todo o meu sabor”. O fato que se sucedia aconteceu domingo pela manhã enquanto a cidade estava tomada por santinhos de políticos famosos que sorriam lindamente e que no verso contavam vantagens aos seus eleitores tópico a tópico. Pelo celular, conferia a situação nos colégios eleitorais e postagens nas redes sociais de pessoas que construíam dia após dia uma nova Ágora, a Ágora dos tempos modernos, que não passava de um chat convencional de pessoas que não fazem questão alguma de viver aquilo que proferem massivamente ao próprio pensar. 

Tinha em mente tudo o que aprendi no colégio sobre a naturalidade das coisas e a perplexidade de um cidadão de bem, porém o sonho concreto era sólido demais para o besteirol o qual girava minha própria vida. Os ônibus não passavam pelos pontos comuns, o futebol estava de folga, as lojas estavam todas fechadas e até a sorveteria tão convidativa para aquele calor não abriu neste domingo luxuoso para o futuro do concreto. 

Tudo acontece neste domingo, pois a eleição do concreto é algo surreal demais para os que vivem tropeçando em buracos da própria imaginação, o ferro fundido é latente demais para um degustador de sorvetes de morango, com cobertura de pó de café e inerte demais para um atualizador de status compulsivo de seus perfis tão pouco visitados. O domingo se foi em mil longas horas até que fosse divulgado o resultado da grande boca de urna faminta por votos que tão pouco trouxe para o concreto interior ou tão muito tapou o buraco da minha desesperança, aquelas haviam feito somente com que o entretenimento ganhasse mil tantas horas de vaidade e outrora uma aurora enraivecida de cimento sob nossos cansados pés.

A noite dominical dava o ar da graça, não sem antes contemplar a magnitude do crepúsculo de baboseiras escancaradas e biquínis cavadões. Sócrates, Alexandras, Leopoldos, Camélias, Lordes e Condessas se embrearam neste período secular, atrás de obras inacabadas para seus dias e foram tapeados por novidades desta polis inundada de hipocrisia e nítida pelo lustra moveis de seus museus particulares de artigos de tão estimados em valor. O domingo se foi e sua grandeza também e tudo o que me sobrou deste concreto foi sonhar com o que o concreto sempre me disse, “sonhe em meu frio, acorde em meu calor, aprecie o meu sabor e digira todo o dissabor”. 

- Senhor, o exame foi concluído, aguarde no corredor que o doutor X irá chama-lo pelo nome para entregar a radiografia do seu crânio.

Era segunda-feira...

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