Falem, meus queridos leitores dO Trem! E vamos falar de música boa! Vamos falar dO Teatro Mágico e seu novo trabalho, “Grão do Corpo”!
Para quem ainda não teve o privilégio de conhecer, O Teatro Mágico é uma proposta musical paulista chefiada pelo [ser de outro mundo conhecido como] Fernando Anitelli, que usa elementos de teatro, circo, filosofia, antropologia e ciências sociais em suas apresentações e composições. Possuem três trabalhos além de ‘Grão do Corpo’, deste ano, e de álbuns ao vivo: “Entrada Para Raros” [2003], “Segundo Ato” [2008] e “A Sociedade do espetáculo” [2011].
Uma das características dO Teatro Mágico é o uso de maquiagens para os shows em todos os integrantes, que além disso não são apenas músicos. Temos bailarinas performáticas, palhaços e acrobatas, sendo as experiência ao vivo dO Teatro Mágico geralmente inesquecíveis e carregadas de muita emoção.
Na nova fase, os atuais integrantes estão refletindo a situação atual de grande parte do povo brasileiro: sóbrios, ávidos por melhorias, ansiosos por coisas reais. Criando uma identidade social, afinal. E como não poderia deixar de ser, a trupe incorpora esse momento de transição cultural e social em seu mais novo trabalho. Conta também [e muito] a saída formal da trupe de Galldino, violinista excepcional que estava nO Teatro Mágico desde sua fundação. Com isso, as músicas de “Grão do Corpo” são facilmente identificadas pelos fãs como autênticos sons dO Teatro Mágico, mas para alguns elas ‘perderam parte da magia’. Eu pessoalmente diria que a ‘magia’ da trupe apenas soa diferente, mas ainda esta lá, tão sensível e bela quanto antes. Porém, assim como um organismo vivo e consciente, O Teatro Mágico assume seus riscos: o de ser quem se é, mas saber que sempre se muda. Que se transforma. E que a maior prova de amor por quem lhe estima [neste caso, os fãs da trupe] é ser quem você é, sem amarras. Fazer aquilo que quer.
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| [A trupe em divulgação do novo álbum] |
A sonoridade de “Grão do Corpo” entra de vez em um universo mais ‘cinza’ se compararmos com os dois primeiros trabalhos da trupe. Na “Sociedade do Espetáculo”, terceiro álbum, houve esta transição de maneira leve, confirmada agora. Músicas como “Abaçaiado” e “Camarada D’água”, mais dançantes, alegres e explosivas, dão lugar a sons mais contemplativos, cadenciados. Entretanto, com a beleza e a alma ímpar que só a trupe consegue colocar em suas composições.
“Mãos aos Desolados”, primeiro som do álbum, mostra bem essa mudança. A letra, de certa forma sensual e complexa, contrasta com o clima gerado pelo arranjo. Inicialmente a impressão que causou particularmente foi de estranheza, mas depois de mais uma ouvida passei a gostar dela, e a entendi como um jogo de sedução adulto, por assim dizer. Sóbrio, contido, que vai se entregando aos poucos, com segurança.
Segue-se com “O Sol e a Peneira”. Se na “Sociedade do Espetáculo” a maravilhosa canção “Amanhã... Será?” homenageava a Primavera Árabe, agora as palavras fortes de Anitelli dão ainda mais força para todas as manifestações dentro do Brasil acerca da injustiça geral, da parca distribuição de renda, das questões de intolerância. Ótima música, com arranjo dinâmico e refrão explosivo. “Onde sobra intolerância/Falta inteligência” é vociferada por Anitelli. Incontestável!
“Da Luta” flerta com o que a trupe se propôs em “A Sociedade do espetáculo”. O clima aqui é mais ameno e seu arranjo é o mais alegre até então. “Onde há amor/Há sacrifício” é cantada no refrão do som, e nele enxergamos que apesar da mudança proposta pela trupe, toda a bagagem de antes não sumiu, está lá, imbuída, parte do total.
“Quando a Fé Ruge” já era conhecida dos shows ao vivo da trupe. No álbum ela ganha um novo arranjo, mais limpo e mais denso. A linha de baixo é o destaque, juntamente com a letra. A superação dita de forma direta e leve.
“Certa Solução” é talvez a mais dançante do álbum. Aqui, Anitelli dá mais uma prova de seu poder imenso de composição. Em poucos versos, diversos sentimentos [saudade, medo, angústia, solidão, insegurança...] são explanados e conversam muito bem com a melodia. A ponte com vocalizações é muito bem executada!
“Perdoando o Adeus”, também já conhecida de apresentações ao vivo e também mais ‘limpa’ no álbum em termos de arranjo, fala de perder para a vida alguém que se ama. “A vida anuncia/Que renuncia a morte”, dois dos mais poderosos versos de toda a história da trupe [e da história da música mundial na minha humilde opinião] fazem um turbilhão de sentimentos explodirem em quem ouve.
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| [Capa do novo álbum] |
“Partilha” é, na minha opinião, o ponto alto do álbum. O álbum inteiro é maravilhoso, mas essa música possui um arranjo fenomenal. A letra é basicamente uma declaração, mas possui o poder de abrir-se: é uma declaração para alguém que existe ou que ainda será encontrado? É uma homenagem para algum casal? Seja como for, é realmente uma “Partilha” ouvi-la. “Quem vem lá/Partilhar...?”, a música pergunta, e neste ponto já temos alguém em especial na mente ou mesmo estamos criando um. Poder sentimental imenso!
“Outrora e Agora” é uma música leve, que contrasta com sua anterior. É um grito de esperança, de que as coisas podem melhorar, e ao mesmo tempo, um incentivo para aqueles que hoje lutam na frente contra as injustiças sociais.
“Consagração da Raiz” começa com uma declamação forte e logo se torna um instrumental carregado, mas muito bem trabalhado, abrindo a mente para o fim do álbum que se aproxima e mostrando mais da nova proposta de sonoridade da trupe.
“Todos enquantos” é a última canção do álbum. Declaração nos moldes de “Você me bagunça”, da “Sociedade do espetáculo”, porém com arranjo mais grave e menos aparente ao se ouvir. A capacidade lírica de Anitelli, versátil e imponente, mais uma vez se dá mostra do poder de fogo que ostenta.
“Grão do Corpo” é um álbum maduro e honesto, que inicialmente pode parecer ser pretensioso de alguma forma. Mas ao terminar de ouvi-lo, percebe-se que não... Se trata apenas de Teatro Mágico, renovado ou não, evoluído ou não. Sua fluidez, seus arranjos e seu lirismo são inegavelmente algo que só poderiam ter sido concebidos por esta trupe que há mais de dez anos comprova para quem quiser ver que “A Poesia Prevalece”.
Segue clipe de “O Sol e a Peneira” [recomendadíssimo]:
E o álbum inteiro, via streaming:
Para quem se aventurar, que embarquem de corpo e alma nesse Teatro Mágico, permitindo-se sentir todo o plantel de sensações, emoções e direções que mais esse grande trabalho proporciona. Sim, a magia da trupe não poderia estar mais forte!
Abraços e até a próxima!
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