Acreditar que a violência será sanada com atos violentos, parte da mesmo lógica ingênua de que atirar um galão com álcool irá apagar uma fogueira
Morreu. Foi algo tão cru e cruel quando essa afirmação pode ser. Um boato na rede social e o ímpeto dos bons cidadãos inflados pelo seu discurso de bem e justiça foram o suficiente para a prisão, julgamento, condenação e execução da suposta ré. Mas afinal, em outros lugares, já tinham amarrado nos postes o preto ladrão e também o doido brigão. Deveria ser previsto que não demoraria muito até que a coragem dos nossos justiceiros implantasse a pena de morte. Em verdade, foi previsto.
Fabiane Maria de Jesus. Era o seu nome. Espancada por seus vizinhos, sofreu um traumatismo craniano, uma parada cardíaca e morreu. O que lhe fizeram foi atroz e não seria menos, mesmo que fosse culpada dos crimes que lhe atribuíram. A cidade do Guarujá tornou-se palco de uma cena da Idade Média em que a Inquisição foi a estupidez e ignorância de umas tantas pessoas e Fabiane era a feiticeira da vez. Nesse ritmo, as fogueiras de Junho não serão de São João.
Fora a comoção notória que o caso pode nos provocar, ele deve ser alvo de uma intensa reflexão. Pois revela os caminhos que a sociedade pensa ter reencontrado para a solução dos grandes problemas que a assolam, como a violência. Se bem me recordo da minha aula de Filosofia do Ensino Médio, Aristóteles acreditava que as pessoas não eram más, elas eram ignorantes. Não sei se é uma máxima, mas muito do mal que se faz, se faz por ignorância. Como essa que foi cometida contra Fabiane.
Acreditar que a violência será sanada com atos violentos, parte da mesmo lógica ingênua de que atirar um galão com álcool irá apagar uma fogueira. Um intenso processo cultural que fez as pessoas acreditarem na bondade e maldade inatas dos sujeitos, faz com que acreditem que os indivíduos são o que são por suas escolhas e, portanto, as alternativas viáveis para lidar com isso é a erradicação de todo aquele que se recuse a cumprir o papel social que lhe foi determinado. Trocando em miúdos, a gigantesca população coincidentemente preta/parda e pobre que lota os presídios do pais, todos os marginais, mendigos e qualquer classe deplorável são o que são em razão das escolhas que fizeram e da falta de “vontade” na vida. Uma vez que as condições e oportunidades são iguais a todos.
Por acreditar nisso, quem comete um crime, é criminoso. Câncer da sociedade. Logo, eliminemos todos os criminosos do mundo e teremos o nosso paraíso terrestre. Falácia. Troca-se os peões mas o jogo continua sendo o xadrez. O mais brutal de um sistema socioeconômico como nosso é criar esses paradoxos não percebidos, não sentidos. A população mata a si mesma, sem perceber que a base que sustenta a esmagadora maioria de atos violentos se baseia em uma situação anterior de violação dos direitos mais básicos de um ser humano, que se funda na profunda desigualdade social presente em nosso país.
Mas dá muito trabalho pensar nisso. “Mudar sistemas, mudar relações sociais?! Que é isso... São apenas utopias...” Pensam assim. Mergulha-se em um pensamento ideológico que falseia a verdade das relações. E assim, tentamos curar o braço quebrado decepando ele. Os justiceiros são um sinal de que a população está cansada da situação de violência, mas é também sinal de que esta mesma população está profundamente distante de qualquer solução satisfatória ao problema. E me assusto ao imaginar de quantos paus, pedras, postes e réus iremos precisar daqui pra frente.
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