![]() |
13 de Maio de 1888. Assina-se a Lei Áurea que prevê o fim da escravidão no Brasil. Esta era a data que “comemorava-se” ontem. O fim da escravidão, diz-se, ocasionado muito mais por pressão internacional – o Brasil era o último país escravocrata do continente americano – e razões econômicas, do que pelo bondoso coração da Redentora Princesa Isabel, trouxe consigo diversos contradições. Foi um progresso sem dúvida. Mas a forma como foi feito esteve longe (muito longe), de sanar o fosso social que separava brancos e negros, forçando esses últimos por um longo tempo (até hoje?!) a ocupar uma posição claramente distinta em relação ao primeiros. Comumente uma posição de inferioridade.
Constituindo a maioria da população brasileira, negros e pardos continuam a ser encarados sob a ótica de uma minoria. Em verdade, não é privilégio deles. Ser oprimido tem sido característica de maiorias populares (quantitativamente falando). Causando portanto, ainda muitos focos de discussão e problemas os debates sobre o racismo e as políticas afirmativas, dentre estas, as cotas (recentemente alvoroçadas pela aprovação de cotas raciais em concursos públicos).
O fato é que historicamente há uma dívida com toda comunidade afrodescendente, com a qual o Brasil tem que se ver de uma forma ou de outra. Essa dívida é histórica pela cruel expropriação desse povo de sua terra natal, pela sua escravização e colonização real e ideológica, pela demonização e qualificação desses sujeitos como inferiores, pela morte bruta e injustificável de milhões de seres humanos. Isso não pode ser simplesmente negado, como pretendem alguns que levantam a bandeira de somos todos humanos e coexistimos em condições iguais. É preciso partir de um outro princípio de justiça que não o que considere que descentes de europeus e descentes de africanos (e outras minorias, como indígenas), gozaram e gozam das mesmas oportunidades de vida.
Não é preciso grande esforço mental no sentido de perceber essas diferenças. Basta dar uma olhada nos diferentes espaços sociais. Recentemente em uma postagem de rede social estavam lado a lado a imagem da turma de formandos de medicina de uma universidade pública (que no contexto brasileiro tem sua significação simbólica especial) e da turma de garis que protestavam em razão das condições de trabalho. Quais grupos étnico-raciais vocês acham que figuravam em cada foto? Nossas oportunidades são medidas em gradação de cor. Olhe-se ainda as prisões, as preferências por crianças em caso de adoção, as comunidades/favelas e os moradores de Alphaville. Basta um olhar sincero.
E o racismo é regado de singelezas, imperceptível a muitos, mas certamente sentido de algum modo por quem é afetado por ele. Do que define “cabelo ruim” a quem é parado primeiro em uma batida policial. Outras vezes ele é brutal, como os constantes ataques a templos de religiões de matriz africana como a Umbanda e o Candomblé. Tudo coisa do demônio. Rastros de uma “moral cristã” que audaciosamente afirmou a escravidão como algo natural, visto que negros não possuíam “alma”. A mesma moral que hoje se vê empossada do direito de invadir lugar sagrado, de depredar o patrimônio cultural que já foi tão forçado a se travestir de outra coisa, porque é muito arriscado se expor. É ainda a mesma moral que move os traficantes a proibirem esses cultos no morro, e decretar sentença pra quem se atrever o contrário. É também o mesmo racismo que leva a jogarmos banana e afirmamos docilmente que somos todos macacos.
Alguns afirmam que o racismo é uma inverdade. Algo superado e que já não existe no Brasil. Ah, parece que fomos mesmos abençoados em nossa cegueira. Mas muitos movimentos felizmente existem e vem procurando desequilibrar essas certezas fantasiosas e maliciosas, vem tentar reestabelecer alguma condição de igualdade. E há muito trabalho a se fazer. Porque agora muitos grilhões são invisíveis, o que não implica que pesem menos, nem que prendam menos. Como de costume e praxe, é preciso história. E uma que não seja alterada pelos “vencedores”.
Arnaldo dos Anjos
A justiça dos justos e o mal da ignorância
Tempos de tristeza
A política vai à Copa do Mundo

0 comentários:
Postar um comentário