![]() |
| O aumento da incidência mundial da depressão expressa uma fala, um enunciado. De que o modo que vivemos nossas relações não são tão satisfatórias, revela que nos habituamos demais e não devíamos. |
A depressão é o transtorno de humor cotado para assumir o topo entre as doenças mais incapacitantes dentro de alguns anos, de acordo perspectiva dos grandes órgãos de saúde. O prognóstico é assustador. Caracterizado por uma série de alterações do apetite ao sono, a depressão é um quadro dilacerante. Isso porque quando nos seus estágios mais graves torna o indivíduo incapacitado de derivar prazer de qualquer pedaço da vida. Mesmo o que antes lhe apetecera tanto, agora indefere, nada significa. Mas, como foi que a tristeza se tornou um problema de saúde pública?
Em verdade há de se distinguir tristeza e transtorno depressivo. A tristeza não é um problema, o transtorno sim. A tristeza, enquanto emoção, caracteriza-se por um estado natural e esperado em determinadas circunstâncias, cumprindo assim as funções para a qual foi destinada. Mas deve cumprir seu tempo e dissolver-se. A questão é quando fica e sequestra o outro de si mesmo, retirando do sujeito o sabor pelo mundo. Porém no universo bipolar em que existimos ou se nega de forma maníaca a existência do sofrimento (buscando a todo custo a ostentação de uma vida feliz a lá final de conto de fadas) ou se é tomado pelo sentimento incapacitante de dor de modo devastador.
A depressão apesar de poder ser causada por eventos que foram significativamente traumáticos, em sua grande maioria revela na verdade os dissabores acumulados de uma vida que conheceu pouco do que lhe traz gozo e satisfação e viveu muito do que são os incômodos diários e repetitivos de um vida de privações e sofrimentos cotidianos, necrosantes, oxidantes. Marina Colasanti em um texto fantástico intitulado “Eu sei, mas não devia”, retrata poeticamente esses acomodamentos que nos esgotam e massacram, sem que ao menos atentemos. Diz ela, ao final do texto: “A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”
É assim. Vive-se tempo de pressa, de tanta pressa que se perde o passo, que se perde a vista, que se perde a companhia. De cobrança, que cobra o tempo, que cobra dinheiro, que cobra o espaço, que cobra o prazer. De dor, que se acostuma, que se medica, que se dissimula. Depois se explode. Esses pensamentos sempre me resgatam Sartre, em “Um esboço para teoria das emoções”, o autor descreve o estado de Zero Afetivo, a tristeza em seu estado mais brutal, é uma tentativa de desinvestir o mundo de toda afetividade, é uma maneira de buscar proteger-se a si mesmo das perdas. Não posso perder naquilo que sequer investi. É verdade. Mas tão pouco se ganha.
E não bastasse todo sofrimento causado pela condição per si que implica a depressão, há um agravamento cultural, que credita unicamente ao indivíduo a culpa pela sua situação. “Falta força de vontade. Falta fé. Falta uma pia de louça para lavar”. Empatia é um risco que as pessoas não se dispõe a correr. Tocar o sofrimento do outro, pode esbarrar no meu e não há tempo para parar. E então sozinho, o indivíduo acredita que é mesmo culpado pela sua condição e as tentativas frustradas de se recuperar pela “força de vontade” só fazem confirmar o “lixo” humano que é.
O aumento da incidência mundial da depressão expressa uma fala, um enunciado. De que o modo que vivemos nossas relações não são tão satisfatórias, revela que nos habituamos demais e não devíamos. Há uma única solução possível? Imagino que não. Há muitas, mas não necessariamente fáceis e possíveis a todos.
E você, já se acostumou com o que não devia hoje?
Leia também


0 comentários:
Postar um comentário