terça-feira, 8 de abril de 2014

Reprodução Facebook


Recentemente, uma prova de filosofia aplicada a uma turma de 3º ano do Ensino Médio em Brasília provocou grande repercussão e muitos murmúrios. A questão se tornou célebre por colocar a cantora Valesca Popozuda como uma “pensadora contemporânea” e solicitar ao aluno que completasse corretamente um trecho da famosa música “Beijinho no ombro” (que conta com mais de 22 milhões de visualizações no Youtube). Foto na rede, vários compartilhamentos e a situação estava montada.

Ainda que sejam a Valesca, esses alunos e esse professor os representantes dessa discussão, ela transcende a eles. Isso porque gera questionamentos do tipo: Qual a função daquela pergunta, naquele contexto? Pode-se considerar a Valesca Popozuda uma pensadora? E se fosse MPB e não Funk? Que em suma são perguntas propositoras da reflexão sobre o que pode-se definir como apreciável no contexto educativo e a função cultural de determinadas figuras. Que neste caso é alguém do universo do funk (outros tantos pontos são levantados tanto pela própria cantora, como pelo professor autor da prova, nas quais não irei me ater).

Não gosto de funk. Ponto. Como a frase indica, EU (oculto na sentença) não aprecio ou acho prazeroso ouvir funk. Muito menos porque o funk tenha alguma característica intrínseca que o torne desinteressante ou um tipo de música inferior, mas muito mais em razão dos aspectos culturais e históricos que conformam quem eu sou. O que quero dizer é que quando se pronuncia algo como verdade, quando conceitua-se os limites e propriedades das coisas, se faz de um determinado ponto e para um determinado espaço/sujeito. Quando digo que Valesca não pode ser considerada uma pensadora, é um EU que o diz e o diz para alguém (possivelmente, para aqueles que discordam de mim e os que são diretamente afetados por isso, como o professor e a cantora), isso atribui história a minha fala potencializando-a e/ou despotencializando-a.

O que realmente torna-se importante aqui é se as dissidências nessa situação, em especial por ser um contexto de aprendizado, conduzem ao diálogo ou a tentativa de dominação. Não tenho, nem poderia ter, acesso aos impactos singulares dessa discussão em cada lugar que ela se levantou. Mas o que nota-se de modo discrepante, são visões moralistas de tentativa de controle do outro. Falta exercício de alteridade. Os resquícios (talvez nem tão resquícios assim) de um etnocentrismo que acredita que apenas o seu universo cultural é digno de se fazer mencionar, faz repercutir opiniões rasas e muitas vezes preconceituosas como verdades únicas e absolutas.

Ainda que pessoalmente acredite que parte do funk sofra de uma ingenuidade social, não posso despontencializá-lo do seu caráter cultural, nem do fato de ser produto pensante dos sujeitos que estão inseridos em um contexto social específico. Pois então, que se manifeste, que apareça nas provas e nas salas. Negar sua relevância é obnubilar a própria visão, é querer resistir dentro de uma bolha “asséptica” com medo de tocar o que o outro está expondo no diálogo.

Cultura é isso. Resultado dos encontros e desencontros dos humanos que produzem sua realidade. Há mensagem e mensageiro no Funk, como nos outros ritmos. Há história de sujeitos e de realidades. Há ritmo. Há provocações. Há reflexões. E se fosse eu professor, e meus estudantes dialogassem com o Funk e não com MPB. Então que toque o pancadão. Porque se os quero pensantes, devemos juntos refletir criticamente sobre o mundo, inclusive sobre àqueles que nos querem presos às rédeas de uma verdade única pronunciada por alguém.



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