quarta-feira, 16 de abril de 2014

Onde começa o processo de mudança? Em que espaço é possível movimentar o país no sentido de levá-lo a se aproximar mais de condições dignas no atendimento aos direitos humanos mais básicos? 


Manifestação ocorrida em São Paulo em janeiro de 2014 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Quando passo pela rua da Consolação em São Paulo, lá estão eles, grandes e vermelhos. Os cartazes dão o grito de ordem: “Não vai ter copa!”. Estão colados no ponto de ônibus e aos poucos também nas cabeças de muitos. As manifestações contrárias à Copa continuam a acontecer. Segunda-feira, 14 de março, o manifesto que reuniu cerca de 1500 pessoas terminou com conflito entre integrantes de um grupo de Black Blocs e a Polícia Militar. Inquieta-me esta inquietação.

Se por um lado esses movimentos podem ser entendidos como movimentos políticos de resistência contra uma forma de condução do governo/estado que não atende como prioridade as necessidades básicas da população no que se refere à saúde, alimentação, educação, trabalho, segurança e etc. Ao mesmo tempo carregam o potencial para gerarem um sem fim de comentários fatalistas e autodepreciativos em relação ao próprio país, bem como (e pior ainda) parece criar uma linha de limites fortes, claros e invisíveis (mantenho o paradoxo) que separam todo o povo da esfera política real e cotidiana. São “eles” os corruptos e bandidos que devem carregar sobre si os meus gritos de ordem e promover a mudança que desejo, sem que para isso haja necessidade de maiores implicações da minha parte.

Observe-se atentamente, não há aqui tentativa de invalidar os movimentos de rua. Eu mesmo apoiei e me interessei fortemente pelo manifestos que vieram a ficar conhecidos sob o título d’A Revolta do Vinagre e que levou uma gigantesca quantidade de pessoas as ruas. O que se faz perigoso são as vias tortas e paternalistas sob as quais pretende-se fazer política.

“Só no Brasil pra acontecer essas coisas...”, “O Brasil é assim mesmo...”, “Esse país não tem jeito...”. Essas e uma centena de outras sentenças carregadas de um fatalismo, que atribui ao destino a situação vivida ou se baseia fortemente na crença de que existe algo de inerentemente errado no Brasil são confissões de imobilidade e dominação históricas, mas ainda assim cabíveis e necessárias de serem superadas. A princípio há de se considerar que corrupção não é privilégio brasileiro, diferente do que os erros de discriminação de alguns indivíduos pode fazer acreditar. A corrupção acontece em diferente esferas da vida e em diferentes lugares do mundo. Mas acreditar nestes afirmações como dado inalterável, isso sim tem interesses muito claro de afastamento do povo de si mesmo. Vítimas de um neocolonialismo que domina e contamina as concepções de mundo a sua volta, essas sentenças se alimentam do conformismo de quem já cansou de tentar ou de quem simplesmente desistiu antes de sequer começar.

A seguir se faz importante questionar: onde começa o processo de mudança? Em que espaço é possível movimentar o país no sentido de levá-lo a se aproximar mais de condições dignas no atendimento aos direitos humanos mais básicos? Certamente não está na atribuição do cenário político a umas tantas figuras que assumem determinados cargos administrativos. Enquanto houver essa expectativas estaremos sob a égide de um paternalismo que não combina com o processo democrático real, mesmo em uma democracia representativa.

É necessário ocupar os espaços públicos propondo críticas pertinentes, avaliadas, discutidas e dialogadas na comunhão entre os homens, em uma luta continua e progressiva. É preciso repensar a partir daí novos caminhos de atuação e implantação que atendam de forma equitativa e justa a todos os envolvidos. Se não é pensado, digerido e transformado, os gritos dos manifestos deixam de ser porta-voz de soluções e transformações, para serem tão somente espetáculo que vulgariza a real ação política.

Sendo assim, antes de emitirmos nossas indignações insistentemente, pensemos sobre as possibilidade e as mudanças desejadas, mas principalmente no que eu posso estar implicado junto com outros, para formação de uma condição de nós que gere satisfação, e quem sabe, mesmo felicidade. Veremos que o exercício político é mais difícil do que calejar os pés e as cordas vocais.

Arnaldo dos Anjos

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