Decepcionante, mas por então, menos alarmante. Esse foi o meu primeiro pensamento ante as noticias inicias referentes à Marcha da Família com Deus pela Liberdade que ocorrera em alguns lugares do país no último sábado, 22 de março. Claro que meu pensamento esteve sob controle da quantidade de pessoas que compareceram ao evento. Maior em lugares como São Paulo e Rio de Janeiro, mas que chegou a contabilizar, por exemplo, 6 pessoas na capital pernambucana.
Mas não se pode negar a relevância sintomática desse movimento nem a ressonância que teve nas mídias sociais e meios de comunicação. Não só pelo alarde, pelo repúdio, mas muitas vezes pelo apoio e admiração. As pessoas que compartilham os ideais da Marcha da Família (dentre elas, a intervenção militar como meio de realização política) não são nem 6, nem 150, nem 500... São mais e em todas as classes, ainda que trafeguem na invisibilidade por vezes (nem tão invisível assim, a bem da verdade).
Reflexões se inquietam. A primeira: por quê?
O que levaria sujeitos a quererem se colocar em uma situação de subserviência a um sistema ditatorial? Por que abdicar da liberdade? Minha primeira associação vai para Étienne de La Boétie, escritor do Discurso Sobre a Servidão Voluntária, diz ele “São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir. É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.” Feitas as devidas proporções (La Boétie vivia e criticava outro modelo, a monarquia), a inquietação é semelhante. Seria então esta a resposta: o povo deseja abrir mão de sua liberdade?
Não suponho que seja, ainda que o aspecto seja de servidão voluntária, de livre entrega da própria liberdade a um tirano, não é este o desejo tanto quanto o é, em verdade, a vontade de ser tirano (outra vez). Quem se manifesta sobre o disfarce da luta contra a corrupção e outras bandeiras carrega em si a vontade de ser ele tirano, que pela força “resolve” as mazelas do país. O que o faria ainda que a despeito da exclusão e expulsão de uns tanto sujeitos, àqueles que não comungam com as ideias de Deus e Família, por exemplo.
Já previa Adorno: a barbárie nos sonda. Acertadamente nos lembra em “Educação após Auschwitz” que não se pode esquecer, lá o nazismo, aqui a ditadura. Não se pode esquecer a monstruosidade do desrespeito à condição humana, a diversidade de opiniões e de vidas, a igualdade e a liberdade. A respeito dos algozes afirma ele “É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismo a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos.”
Qual o caminho então? A educação, crítica e histórica. Tem que se banhar na história como diria meu admirado Paulo Freire (exilado por ocasião dessa ditadura que agora defendem; sofredor das amarguras desse processo). Lembremos insistentemente então do que foi a realidade da ausência da democracia e que as falhas desta não nos faça crer que o retrocesso é melhor. E mostrar, conscientizar, educar. Me recuso a colocar novamente as correntes nas mãos, pés e pescoço. Encerro pois com este mesmo Freire em Pedagogia do Oprimido:
“A libertação, por isto, é um parto. É um parto doloroso. O homem que nasce deste parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos.
A superação da contradição é o parto que traz ao mundo este homem novo não mais opressor; não mais oprimido, mas homem libertando-se.”
Faça-se o parto. Ditadura nunca mais.


0 comentários:
Postar um comentário