Vou dispensar a introdução. Afinal não há brasileiro que não tenha ouvido falar do tão aclamado/famigerado beijo “gay” entre as personagens da novela Amor à Vida de Walcyr Carrasco, que ocupou até a última sexta-feira, 31 de janeiro, o horário nobre da Rede Globo de televisão. Depois de uma forte expectativa de parte do público (inclusive com a campanha #BeijaFelix pelas redes sociais), no último episódio da trama fez-se o beijo. Mas não nos deixemos no engano da ingenuidade crítica, é preciso ter olhos para o que não se revela de pronto e memória para o que o passado (recente inclusive) nos conta. Deste modo retomo três pontos a título de reflexão: o processo educativo no combate a homofobia, os interessantes fatos do ponto de vista político do ano anterior e uma breve espiadela pela realidade cotidiana.
Ainda me causa estranhamento o profundo enraizamento da teledramaturgia (da dita emissora em especial) no processo educativo dos brasileiros. Afinal, porque um beijo assumiu tamanha importância? A resposta seria porque concretiza um ato simbólico (guarde-se o paradoxo da sentença) de “progresso” no modo de lidar com a sexualidade? Mas se isto fosse: o que representou o outro beijo, o esquecido, protagonizado na novela da outra emissora? Não, a importância não está no beijo, mas em quem o mostra. Foi preciso relegar mais uma vez a televisão (entenda-se a Globo) o processo “educativo” do povo brasileiro. Processo torto ainda, distante das discussões portadoras de reais transformações nos paradigmas sociais. Do gênero que poderia ter sido fomentado, não fosse o veto de projetos como o programa que ficou conhecido como “Kit anti-homofobia”, que seria o reconhecimento da educação no período elementar como via régia para o aprendizado do respeito às diversidades. Por essas vias de agora, ibope é o centro, tomada de consciência é no máximo efeito colateral.
Bem, se o processo educativo não se cumpre plenamente, ainda mais arriscado considero a imagem que talvez chegue a alguns de que já não há homofobia. Afinal até beijo gay tem na televisão. É preciso refrescar as recentes perdas do ponto de vista dos direitos de minorias no ano anterior, dentre elas a população LGBT. Inclua-se a isso a tomada da Comissão de Direitos Humanos e Minorias pelo Pastor Marco Feliciano (que hoje também dispensa apresentações), some-se o arquivamento do PLC 122 que visava criminalizar a homofobia e o sempre crescente número de vítimas do ódio de quem não tolera o diferente de si, e já haverá um panorama razoável dos desencontros e contradições da realidade brasileira.
O fato é que longe das telinhas, basta ser gay, lésbica, transexual, travesti, para saber que os passos são mais lentos. Para saber que há lugares em que se pode dar a mão ao parceiro e lugares em que não pode (90% deles). Beijo então... Nem no rosto. Que se vive com medo da violência seja física, verbal e psicológica. Que se perde emprego, que se é isolado. Que se morre a pontapés, socos e chutes...
Mas não sou um pessimista, os progressos ocorrem. A sociedade segue melhor do que no passado. Comemore-se o beijo, se assim o quiser. Só torço para que o glamour de certos fenômenos não oculte a face real das grandes maiorias. Que não nos esqueçamos de elevar a discussão a um ponto que considere verdadeiras políticas públicas afirmativas e atuantes no processo de combate a ódio e na promoção de igualdade de direitos. Afinal, nem só de beijo viverá o homem.


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