quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

"Operários" - Tarsila do Amaral
Tão ansiadas, tão adoradas, tão passageiras. Assim são as férias para muitas pessoas nesse período do ano. O breve respiro para fora da condição cotidiana de trabalho é recebida com máxima alegria e abandonada com pesar. Também deste modo ocorre com os feriados, em São Paulo, vividos como uma verdadeira experiência de êxodo em direção ao litoral e interior (o que se tornará frequente nesse ano de Copa e Eleições). Pensando por este ponto, há de se suscitar perguntas: o que acontece que nos faz sermos tão desejosos assim pela fuga da vida diária? 

Crio hipóteses: as crianças fogem da escola, os jovens e adultos da universidade e da empresa, e muitos enfim fogem da cidade. O que isso quer nos dizer? Em verdade muitas coisas, que não se esgotam facilmente. Nesse momento fiquemos com a fuga do trabalho/empresa. Como já conhecido, alguns linguistas determinam que a palavra “trabalho” tem origem na palavra latina tripalium, um objeto de tortura usado pelos romanos para punir escravos. Na Grécia, o trabalho braçal ocupava um lugar secundário, dedicado aos escravos, enquanto se elevava a atividade contemplativa, filosófica e politica. Posteriormente mudanças econômicas e sociais significativas, por exemplo, a ascensão de propostas religiosas como o Calvinismo e a consolidação do Capitalismo, ressignificaram o trabalho lhe colocando enquanto condição essencial a vida humana, que a dignifica e valoriza.

Se em verdade a condição de valorização do papel social do trabalho se alterou muito ao longo dos anos, o mesmo não ocorreu com a condição de trabalho da maioria da população. Obrigados a pensar na sobrevivência imediata em um mundo desigual, as pessoas vão submetendo-se gradualmente desde o processo formativo na escola, à aceitação das condições de trabalho que “sempre foram assim e sempre irão ser”. Acostuma-se a ideia e logo a saúde mental se esvai. Adapta-se a salários injustos, a condições insalubres de trabalho, ao assédio moral, ao excesso produtivo, a humilhação cotidiana, as relações profissionais doentias, as cobranças por metas, a burocratização dos contatos.

Eis que surgem então os “viciados em trabalho” (workaholic), os “burnouts”, os Lesionados por Esforços Repetitivos, os sujeitos em sofrimento mental... As férias são nossa fuga à loucura cotidiana, são os presentes intermitentes que nos permitem continuar a produzir e trabalhar, quando de outro modo não seria possível. A medida certa de privação e oferecimento de prazeres instantâneos e formatados de tempos em tempos, são o segredo para um controle social eficaz.

Em um site muito interessante, chamada Elogio à preguiça, Marilena Chauí traz um breve retrospecto sobre o trabalho e sua relação com o ócio, questiona-se também: “(...) como e quando o horror pelo trabalho transformou-se no seu contrário? Quando as palavras honestus e honestiores deixaram de significar os homens livres e passaram a significar o negociante que paga suas dívidas? Quando e por que se passou ao elogio do trabalho como virtude e se viu no elogio do ócio o convite ao vício, impondo-se negá-lo pelo neg-ócio?”

É certo que vivemos condições que necrosam a vida no nosso dia-a-dia, este é um dos motivos de nossa fuga. É a impossibilidade de encontrar satisfação na atividade que já não ocupa função de transformação do mundo (como deveria ser a função do trabalho), mas sim de produção de lucro exclusivamente, insensível as condições para se obter prazer no que se realiza. O trabalho é novamente a escravidão da vida, cuja liberdade é recuperada por uma carta de alforria de alguns dias nas férias e feriados.  Quando o trabalho se torna frenético e desumanizador, portanto, cabe um elogio a preguiça, àquilo que nos restaura.

Encerro com uma frase retirada do site referido anteriormente, e de autoria de Michel Foucault: “O sujeito consagra-se, hoje, a um tempo que não é mais o da existência, de seus prazeres, de seus desejos e de seu corpo, mas a um tempo que o da continuidade da produção, do lucro.”



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