Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.*
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| Albert Camus |
L'Étranger foi o primeiro grande romance que me lembro de ter lido. Não é difícil rememorar, ao menos em parte, os sentimentos que tive ao entrar em contato com a curta saga de Meursault. Havia uma espécie de comunicação com o tempo ali, associada à lembrança de cidades europeias a mim desconhecidas. Penso também ter sentido o desejo da indiferença, além de uma espécie de conforto perante o vazio de meu cotidiano.
Não creio que seja necessário um pretexto para se falar de Albert Camus, mas caso alguém assim exija, uma nova biografia do escritor e filósofo franco-argelino está por aí, fresquinha nos mercados internacionais. A Life Worth Living, de Robert Zaretsky. Para os interessados, segue LINK com bloco do Manhattan Connection tratando do livro.
O tema do absurdo, grande centro do pensamento camusiano, dominou meus interesses durante um bom tempo. Em verdade, foi o único estudo relativamente sério que fiz durante os anos perdidos da universidade de filosofia. A predileção começou a ser desenvolvida naquela leitura de uma tarde do pequeno romance de Camus. L'Étranger me levou a La Nausée – de um Sartre ainda interessante e não envolvido na defesa estúpida de regimes autoritários e assassinos – ao Dadaísmo (em especial as discussões sobre o acaso e a anti-obra de Marcel Duchamp), além de ter me fornecido substrato para pesquisas comparativas com a literatura americana da primeira metade do século XX, de personagens errantes como Arturo Bandini, presente no maravilhoso romance de John Fante, Ask the Dust.
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Diogo Mainardi gosta de enfatizar que ninguém leva mais leva a sério a literatura e os escritores. Ele fala da verdadeira literatura e dos verdadeiros escritores e ele está certo. Os grandes temas de nosso tempo são a altura do voo dos dragões, a tenacidade de meninas com arco e flecha, o erotismo voltado para senhoras acima do peso. Nesse sentido, ler Camus hoje é o mesmo que sorrir para a solidão e L'Étranger é a projeção de um mundo em que matar um homem fará pouca diferença, contanto que você caia em prantos no funeral de sua mãe. L'Étranger é a projeção de nosso mundo.
*Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: "Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos." Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. (Parágrafo inicial de L'Étranger – O Estrangeiro – disponível em português na tradução de Valerie Rumjanek).


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