quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Thinkstock


Confesso, tenho uma particular admiração pela transitoriedade das coisas. E muito possivelmente em razão disso recorrerei a um material que degusto mais pelo valor poético e pela temática, que necessariamente pelo conteúdo das ideias de seu autor. Indisposições à parte, Freud possui um belo texto chamado “Sobre a Transitoriedade”, em que relata a cena de um passeio com um jovem poeta e o diálogo que empreenderam a respeito do valor que as coisas belas possuíam ou não à medida que transitórias, passageiras, efêmeras.

Você já se perguntou: a vida vale mais ou menos, uma vez que perene? Quando o destino certo é a morte, que relevância a vida adquire? Longe de oferecer respostas, mas a fim de continuar a suscitar perguntas, forneço uma das considerações do próprio Freud: “Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor. Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição”.

Agora tentarei fazer jus ao título deste texto. O final de ano chega e para muitos vem carregado das reflexões sobre a vida vivida e a vida desejada. Algo místico na contagem do tempo marcada a cada 365 dias mobiliza uma grande quantidade de indivíduos a pararem e pensarem se banhando na possibilidade de recomeçarem e se imaginarem em outras casas, em outros carros, em outros corpos, em outras companhias, em outra vida... Por um breve instante, às vezes de minutos que antecedem uma contagem regressiva de dez segundos, finalmente se para.

Em alguns felizes casos talvez se apercebam da transitoriedade da vida, tal qual Freud admirem o belo pela sua fruição, reconheçam que não só este breve momento, mas toda a sua vida mereça ser elevada a uma condição de valorização, porque passa, porque finda. Nos termos do filósofo Martin Heidegger, talvez alguns se angustiem diante da “impossibilidade de todas as possibilidades”: a morte. Todos os planos podem estar fadados a não acontecerem, pelo simples fato de que se morre e diferente da obra de Saramago, não há envelope que nos é entregue com tempo para fazer as despedidas, colocar as coisas em dia e realizar os planos esquecidos.

Todavia na maior parte das situações tão logo acabem a contagem regressiva e a bebida do réveillon, também acaba-se a reflexão. Somos tragados a nossa cotidianidade de planos não realizados, de sonhos adiados, de promessas não cumpridas. Nos esquecemos do valor do tempo e da vida, ambos tão brevemente passageiros. Mas a nossa morada é esta existência inautêntica, de ocupação com as coisas do dia-dia, diria Heidegger, mas é necessário angustiar-se de tempos em tempos, para que se aproveite o sumo de cada momento, que a qualquer instante, sem prévio aviso pode se tornar o nada.

Eis um desejo improvável: que todos possam se angustiar nesse novo ano. Que possam ser retirados dos eixos de inautenticidade, que não reconhece o valor da vida bela e efêmera. Nos libertemos do ciclo vicioso de ano novo, não é preciso esperar 365 dias para desejar viver.



Fonte:
FREUD, S. Sobre a Transitoriedade (1916/1915). Retirado do vol XIV das Obras Completas – Ed. Imago.

0 comentários: