quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

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Em tempos de vestibulares e “Lulu”, difícil saber o que não é avaliado. No atual momento histórico, cada passo é medido, categorizado e classificado. Aos bem-aventurados, as bonanças, aos desajustados alguns tantos procedimentos (não baratos) podem concertar e oferecer algum alento. São provas, testes, escalas e critérios intermináveis em que raro é não deslizar em alguma “anormalidade”.

Uma vez bem medidos e bem pesados, podemos ser marcados e constituímos assim rupturas na sociedade: dos normais e anormais (ou no mínimo, indesejáveis). O cientista social Erving Goffman traz uma interessante contribuição para a discussão dos “desviantes”, dos “estigmatizados”, ou seja - no nosso caso - aqueles que não pontuam tanto assim nos aplicativos ou nas provas de vestibulares. Segundo Goffman “um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social quotidiana possui um traço que pode-se impor a atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma característica diferente da que havíamos previsto.”

É assim, em uma sociedade que muito se avalia, muito se estigmatiza, muito se afasta. Quando me relaciono com a Luluzinha ou com o Bolinha, com base no seu desempenho virtual ou na capacidade de responder perguntas arbitrárias sobre coisas que nunca precisará, não há espaço para o encontro real, ela é o número tão somente. Seus atributos, qualidades e mesmo defeitos reais são automaticamente obscurecidos pelo seu estigma. Ali está colocado o sinal em luzes de neon: não relacionável. Desse modo, seja nas relações pessoais ou na educação, o que vivemos são contatos falaciosos em que tocamos apenas nossos preconceitos. Nos tornamos míopes ou cegos ao olhar para o outro, bloqueados pelas avaliações precipitadas.

Bem pior que ser avaliado, é acreditar nesses processos de avaliação como critérios justos para dizer quem eu sou. Uma vez que passo a acreditar nesses critérios como verdades absolutas a priori, passo a persegui-los em uma busca implacável pelos números, sob preços realmente onerosos (à vida e a quem sou). Nesse processo vou deixando de ser pessoa, vou me “coisificando”, sou objeto-coisa a ser padronizado. E um dos processos mais dolorosos é desumanizar-se.

Não à toa, em sentido bem contrário um psicólogo norte-americano de influencia humanista, Carl Rogers, colocava que talvez o principal desafio de qualquer indivíduo seja “tornar-se pessoa”, tomando emprestado ideia do filosofo Kierkegaard. Rogers entendia que aproximar-se daquilo que realmente se é faz parte do processo de saúde mental de todo sujeito.  E mais importante, somente quando me aceito como sou, posso então evoluir. Concluo com uma colocação do próprio Kierkegaard “A decepção mais comum é não escolhermos ou não podermos ser nós próprios, mas a forma mais profunda de decepção é escolhermos ser outro antes de nós próprios.”

Fontes
Goffman, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 1981.
Rogers, C. Tornar-se Pessoa. 1961.



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