Mais uma vez bem vindos à minha coluna semanal, galera dO Trem! Hoje lhes trago uma das gratas surpresas em questão de animação com a qual tive o imenso prazer de me encontrar nestes últimos tempos... Psycho-Pass! ATENÇÃO: Pode conter spoilers!
Psycho-Pass é uma animação japonesa – anime – feita pelo estúdio Production I.G. [o mesmo de Shingeki no Kyojin], que teve sua primeira temporada veiculada no segundo semestre de 2012 em terras nipônicas. Se destaca por seu roteiro denso, personagens fortes e por usar uma gama de elementos de filosofia, antropologia e teologia no decorrer de sua estória.
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| O grupo de investigação principal - Reprodução/Farus's Eyes |
O enredo gira em torno de Tsunemori Akane, jovem que obteve as notas mais altas de sua vida acadêmica, e com isso poderia escolher qualquer lugar para trabalhar e ‘ser feliz’. Akane então escolhe o departamento de polícia, pois além de poucos escolherem este lugar ela possui o sentimento interno de que lá poderá deixar um legado, algo que somente ela poderia deixar.
Só que a polícia da distopia de Psycho-Pass não é como nós a conhecemos. Existem os inspetores, time da recém chegada Akane e de Ginoza Nobuchika, inspetor mais experiente da equipe; e existem os subordinados dos inspetores, os executores. E é aí que Psycho-Pass mostra a que veio.
Há um sistema que vigia todos os cidadãos do Japão, chamado Sybil. O sistema Sybil consegue ler o ‘Psycho-Pass’ dos cidadãos, que é uma espécie de medidor de stress. Caso algum cidadão ultrapasse o limite ‘aceitável’ do Psycho-Pass, ele é tratado como criminoso – mesmo sem ter feito nada. Para alguns cidadãos é oferecido um tratamento de recuperação, para outros não... O sistema é quem julga. Para algumas pessoas, ao ultrapassar o limite de seu Psycho-Pass e se tornar um ‘criminoso latente’, lhes é oferecido tornarem-se executores, que são os integrantes do grupo policial que matam os criminosos. Isto é feito para que os inspetores não tenham contato algum com a morte, a fim de evitar mais criminosos latentes entre os policiais. Um executor tem sua vida resumida a trabalhar, ficando o restante do tempo preso no departamento de polícia. Grande parte dos executores são ex-policiais.
No grupo de Akane temos Shinya Kogami, um ex-inspetor que viu seu melhor amigo ser morto e ultrapassou o limite aceitável do Psycho-Pass, tornando-se executor. Kogami resume sua vida em descobrir o responsável pela morte do seu amigo, nem que para isso tenha de perder o restante de ‘vida’ que possui.
Todos os personagens da linha principal são extremamente cativantes, no entanto focarei nestes três para não prolongar o texto. E, claro, focarei também num dos melhores vilões que a arte já produziu: Makishima Shougo.
Shougo quer destruir o sistema Sybil por diversos motivos, e todos eles muito válidos, muito embora seus métodos para tal sejam cruéis. A sua principal motivação é a ‘busca pela humanidade’, pois ele acredita que o sistema Sybil transforma as pessoas em marionetes, causando doenças degenerativas do sistema nervoso devido ao cerceamento psicológico imprimido pelo Sybil aos cidadãos. Também ele é prova viva de que o sistema não é perfeito, visto que seu psycho-pass é sempre muito pequeno, mesmo que esteja matando alguém. Leitor assíduo e extremamente inteligente e carismático, Shougo procura pessoas que tenham o interesse de abalar o sistema, que tenham o sangue ferino que ele julga necessário para todos os humanos.
A primeira temporada de Psycho-Pass se foca na perseguição da equipe de Akane e Kogami à Shougo. Neste decorrer muitas coisas ocorrem, sempre instigantes e surpreendentes. Cada personagem do cerne do enredo tem sua origem apresentada, e muitas pontas se interligam ao decorrer dos 22 episódios. A filosofia é sempre muito presente [no primeiro embate entre Shougo e Kogami eles citam Focault e Pascal enquanto duelam!], mas o que mais me chamou a atenção particularmente em Psycho-Pass é sua crítica ao ideal de ‘perfeição’ que é explanado nele: Uma sociedade sem crimes, mas que controla tudo o que você pode ser, desde sua vocação até mesmo sua alimentação e seus gostos musicais. Akane é paradoxal, pois julga que o mundo como é precisa do Sybil, muito embora não concorde com ele. Esse questionamento permeia toda a obra, e quando é revelado como funciona o sistema Sybil ele é reforçado mais ainda. Muitas teorias são exploradas, como a teoria da Caverna de Platão [para quem não conhece, Google pra quem te quer!] ou mesmo toda a antropologia sobre Ser Humano e Sociedade incutida em As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.
Mais do que um excelente anime, Psycho-Pass é uma aula sobre diversas coisas. Uma forma de enxergar a si mesmo na loucura alheia, e de perceber que a Utopia do mundo perfeito pode trazer muitas consequências, visto que somos Humanos, caracterizados pela imperfeição. Será mesmo a imperfeição humana repulsiva? Não será ela a nossa maior beleza e nosso maior trunfo no Samsara* eterno?
Fico por aqui desejando muito pensar para quem se aventurar a assistir! E que venha a segunda temporada, já confirmada e em fase de produção!
Ótima semana para todos!
*Samsara: pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos. (sânscrito-devanagari: संसार: , perambulação). Extraído de Wikipédia.org.



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