terça-feira, 26 de novembro de 2013

Conheça o trabalho dos jovens correspondentes que se empenham em mostrar a periferia sob um olhar que foge aos estereótipos


Equipe Blog Mural/Reprodução

Dizer que a periferia não é assunto na grande mídia seria mentir. As regiões periféricas constantemente são expostas por programas sensacionalistas que não perdem tempo em explorar as condições precárias de vida e a violência destas áreas para assim transformar a tudo em um grande espetáculo de horrores, provocando cada vez mais a visão deturpada e preconceituosa em relação a estas regiões que, fora esta exposição midiática negativa, quase sempre padece por falta de visibilidade. Coletivos artísticos, ONGS, grupos de ativistas e diversos outros atores sociais tem incessantemente empreendido seus esforços na melhoria das condições de vida e da desmistificação da negatividade atribuída a estas regiões. 

À exemplo disso, um grupo de jovens engajados e comprometidos em promover a mudança destes estereótipos, tem desenvolvido  um trabalho que não só dá a visibilidade mais do que merecida ao povo da periferia, como se torna o canal pelo qual a periferia mostra para São Paulo – e ao Brasil- que tem voz, e que esta voz tem força. Conheça o Blog Mural, um legítimo representante da voz periférica hospedado na página de internet da Folha de São Paulo.

Gravação de reportagem - Reprodução/Facebook
O projeto teve início em janeiro de 2010, durante as oficinas de jornalismo cidadão que aconteceram na sede da Folha de São Paulo. Idealizado pelo jornalista Bruno Garcez, que se licenciou durante um ano de seu trabalho como correspondente da BBC Brasil em Washington para formar jornalistas cidadãos em São Paulo, o projeto foi viabilizado graças a uma bolsa da Fundação Knight, oferecida pelo International Center for Journalists (ICFJ), uma entidade que promove iniciativas pioneiras de jornalismo em diferentes partes do mundo. Para criar o blog, Bruno buscou jovens formados ou não em jornalismo, que tivessem experiência na criação de textos, blogs e vídeos. Além disso, ele buscava pessoas que morassem em bairros periféricos ou que tivessem ingressado na universidade através de algum tipo de política compensatória, como é caso do Prouni. A partir disso, foram selecionadas pessoas que se preocupam com os problemas do bairro e que daí pra frente seria os “porta-vozes” da região em que moravam. “A intenção é oferecer um olhar novo, uma visão de dentro de uma área que não estava sendo contemplada pela grande mídia”, afirma Cíntia Gomes, 30, jornalista e correspondente do blog.

Cíntia conta que grande parte da motivação dos jovens em se tornarem correspondentes surgiu da constatação de que os grandes veículos só mostravam a “versão da Polícia”. O blog, que inicialmente se chamava “Mural Brasil” contava inicialmente com 40 correspondentes. Depois de um ano de existência, o blog passou a ser hospedado em um dos maiores jornais de Brasil, a Folha de São Paulo, fazendo parte de seu conteúdo exclusivo e coordenado pela jornalista Izabela Moi. O projeto não contava com patrocínios e a Folha não entrava com dinheiro, apenas hospedava o blog em seu site.

Além de escreverem matérias mostrando os problemas pelos quais passam os moradores das periferias, os jovens correspondentes empenham-se em mostrar o que “a quebrada” tem de bom. O grupo, que se reúne mensalmente para a definição das pautas, fazem postagens diárias em que o dia a dia dos moradores destas regiões é evidenciado. “Não queremos falar apenas de violência e projetos sociais, mas também de outras coisas que nunca chegam à imprensa”, conta Cíntia. Para além da simples denúncia, o blog também aponta soluções para os problemas. Algumas das matéria produzidas resultaram em melhoria real e resolução dos problemas nas comunidades em questão. Assuntos relacionados à mobilidade, sinalização, saúde pública e educação fazem parte das pautas. 

Gravação de reportagem - Reprodução/Facebook
Entre os diversos casos em que houve resolução do problema após uma denúncia feita pelos correspondentes do blog, podemos citar uma matéria publicada em 2011, que falava sobre o descarte irregular de entulho. Após a repercussão da publicação, a subprefeitura do Campo Limpo entrou em contato coma equipe do blog para informar que havia enviado funcionários para recolher os materiais. “Buscamos fugir do senso comum e mostrar a periferia em toda a sua diversidade. Além disso, não hesitamos em denunciar as precariedades existentes no sistema educacional, tomando sempre o cuidado de não se utilizar da vulnerabilidade de uma comunidade de forma sensacionalista, para não criar ainda mais pré-conceitos”, conta Cíntia. A construção de acessos para portadores de necessidades especiais e falta de estrutura em escolas também foram casos publicados pelo grupo e que foram solucionados.

Completando 3 anos recentemente, muitas histórias já foram divulgadas e conquistas foram alcançadas. Em 2011 e 2013, novos correspondentes comunitários se uniram ao grupo. O reconhecimento do projeto também veio com o apoio institucional do Escritório Zonal do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em São Paulo, em fevereiro de 2012. O retrato de histórias que poderiam passar despercebidas ao público trouxe ao trabalho dos blogueiros prêmios como o “Top Blog 2011 e 2012”, na categoria “Cotidiano” e “Notícias”, escolhido pelo júri acadêmico (formado por profissionais), e uma final no 2° Blog Talent Show.

Confira abaixo o vídeo que marca os três anos do Blog!



Arnaldo dos Anjos

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