Não era difícil arquitetar o que se passava pela cabeça de Antônio. Imagine observar parte de sua vida sendo apagada e não poder sequer reagir, pois seu corpo está atado a algum recanto de sua casa. Seus olhos ressabiados o denunciavam. Imprimiam-lhe uma expressão de desânimo e amargura. Caminhava de um lado para o outro enquanto conversava comigo e me descrevia o ocorrido do dia anterior, quando assaltantes invadiram sua casa e lhe saquearam parte de sua coleção de gibis. Eram mais de sete mil revistas. Agora não sabia mais quantas eram.
Fazia frio naquela noite cinzenta de São Paulo em que conversávamos. Tom Zé, como era conhecido, usava um suéter e calças marrons. Caminhava de um lado para o outro de seu escritório. “Pegaram o que tinha de mais valor.” Aquela frase dizia mais do que parecia dizer. Quase pude ver aquele senhor de 64 anos escondendo as histórias de O Lobinho de sua mãe. Não queria ser considerado um degenerado. Ele era apenas um colecionador.
Insisto em chamá-lo de Antônio. Ele não se incomoda. Era como se o apelido Tom Zé não lhe pertencesse mais. Os ladrões levaram o Tom Zé com eles também. Ou talvez não. Talvez ele simplesmente não se importasse. Olhou para mim. Falou-me do sobrado onde guardava as revistas. Convidou-me para um café. Aceitei. Tomei. E fui embora com Antônio que deixou-me a porta com um sorriso desolador. Antes, porém, o senhor de face pálida me confidenciou que não lia os quadrinhos que guardava há mais de vinte anos. Eu havia entendido. Antônio não era um leitor. Era um colecionador. Um colecionador, agora, em pedaços.
*Embora se baseie em um acontecimento verídico, o texto acima é um conto – e, portanto, ficção – desenvolvido como parte de uma oficina de jornalismo literário.


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