quinta-feira, 17 de outubro de 2013

The Newsroom é um seriado americano que levanta interessantes questões sobre política e jornalismo


Reprodução / Site Oficial

Os Estados Unidos da América, a nação odiada de Ronald McDonald, e das alfaces mais saborosas do planeta, é um lugar onde os paradoxos convivem de um modo curioso e desafiador. Se os atentados terroristas de 11 de setembro fizeram com que rugas de paranoia e desespero nascessem na testa do americano médio, essas rugas - que, de alguma forma, ainda estavam lá - não foram suficientes para que americanos médios deixassem de eleger um presidente com Hussein como seu nome do meio.

Abordando os reflexos desse passado americano recente, surgiu o seriado televisivo The Newsroom. A série começou a ser desenvolvida por Aaron Sorkin em 2009, teve seu piloto exibido pela HBO no começo de 2011, e sua primeira temporada foi veiculada no mesmo canal a partir de junho de 2012. O episódio de estreia carrega uma sequência impressionante em que Will McAvoy (âncora do fictício jornal televisivo noturno News Night interpretado por Jeff Daniels), esbraveja contra a polarização cada vez mais intensa e baseada em superficialismos dos partidos republicano e democrata, simbolizada através de dois participantes de um debate.

Will McAvoy é uma espécie de jornalista que desistiu do jornalismo ao se adaptar a rotina de uma imprensa pouco factual, pouco crítica e pouco relevante. Mas McAvoy tinha seus ídolos, e tanto Walter Cronkite¹, quanto Edward R. Murrow², não deixariam a consciência de McAvoy dormir em paz. De qualquer forma, se nem dois dos maiores âncoras da história do jornalismo fossem capaz de curar a apatia do personagem, MacKenzie McHale, a produtora do jornal apresentado por McAvoy – e interpretada por Emily Mortimer – seria.

Junto com McHale, o personagem de Jeff Daniels imprime uma saga de transformação no jornal apresentado por ele. McAvoy se propõe a não distorcer fatos, não esconder sua opinião e não deixar de ouvir opiniões contrárias as suas. Internamente o News Night passa a ser chamado de News Night 2.0.

Republicano registrado, McAvoy passa boa parte da série criticando os extremismos de seu partido – em especial do bloco Tea Party. A tese do âncora é a de que o partido perdeu o rumo e enfraqueceu seus próprios valores ao buscar os votos de uma minoria de fanáticos. Ainda que Aaron Sorkis, criador de The Newsroom, seja um apoiador de candidaturas democratas, os exames do discurso republicano não deixam de fazer sentido por isso. As críticas podem ser uma luz para que o partido republicano busque passos mais racionais e consistentes, ao invés de tatearem o chão como bebês-dinossauros.

Os produtores da série ainda merecem crédito por terem reunido um elenco de primeira, pelo excelente texto, e, sobretudo, por darem a Jeff Daniels um papel digno de sua grandeza. Quem duvidar, que assista The Squid and the Whale, e volte a falar comigo depois.

Como pontos finais, vale salientar que The Newsroom deveria fazer parte do currículo obrigatório de qualquer universidade de jornalismo – junto com All the President's Men, clássico de Alan J. Pakula (baseado no livro homônimo de Carl Bernstein e Bob Woodward), e Good Night, and Good Luck, dirigido de forma brilhante por George Clooney.

The Newsroom apresenta com maestria os bastidores de uma redação; as alegrias, desilusões e fracassos de uma cobertura jornalística; os egos e medos de profissionais respeitados em seu meio. Sobretudo, a série americana ganha pontos por apresentar algumas habilidades necessárias para alguém que pretende ser um jornalista decente, como, por exemplo, a capacidade de manter-se autêntico, de respeitar e investigar o fato, e a de não sucumbir perante a mediocridade e a covardia.



¹Walter Cronkite foi um jornalista americano que cobriu, dentre outros fatos, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã, além de ter reportado a morte de John F. Kennedy e a chegada do homem a lua.

²Edward Murrow, também americano, foi um jornalista da CBS que teve um papel crucial na queda do prestígio político de Joseph McCarthy.





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